quinta-feira, 2 de junho de 2022

O Portugal dos anos quarenta

 O Portugal dos anos quarenta


Uma grande amiga minha contou-me ontem esta história:

"O meu pai, como sabes, era veterinário em Gouveia, no início dos anos quarenta. Às vezes levava um de nós (filhos) quando tinha de ir a cavalo por caminhos difíceis fazer tratamentos a animais. Fazia-o porque sabia quanto gostávamos de ir com ele na garupa do cavalo.

Um dia levou-me até à casa de um homem que tinha uma vaca com dificuldades no parto. Depois de terminado o seu trabalho, teve de entrar em casa do dono da vaca, onde este tinha um alguidar para o meu pai se lavar. Entretanto, enquanto se lavava, estranhou ouvir gemidos que vinham de outra divisão da casa e quis saber o que se passava e quem estava doente. Então a mulher do dono da vaca respondeu-lhe, com ar muito triste: "É um dos nossos filhos que está muito mal." Perguntou-lhe o meu pai: "Então e não chamam um médico para o observar e tratar?" Ao que a mulher respondeu: "Senhor doutor, nós somos muito pobrezinhos. Como precisávamos de o chamar por causa da vaca, ficámos sem dinheiro para tratar o nosso filho." Claro que o meu pai ficou muito chocado e disse-lhes que em primeiro lugar estava o tratamento de um filho e não o de um animal. Mais chocado ficou quando a mãe do rapaz doente lhe respondeu:"Nós temos doze filhos. Se a vaca não se salvar, morremos todos à fome. Se morrer um dos nossos filhos e a vaca se salvar, conseguimos viver com menos um filho. Não tinhamos outra escolha."

 O meu pai ficou indignado e comovido com tanta miséria e sofrimento. Não só nada lhes cobrou, como lhes deixou dinheiro para medicamentos para a vaca e prometeu-lhes chamar um médico amigo que não lhes cobraria nada e trataria o rapaz doente, o que aconteceu. Esse medico, que também tinha onze filhos, não só tratou o rapaz de graça como lhes deu dinheiro para os medicamentos."

Era assim o Portugal desses tempos

Hoje, por ser o dia mundial da pobreza, entendi que seria importante contar este triste episódio.

Termino acrescentando que esse veterinário, amigo e compadre do meu pai, foi, pouco depois, proibido de exercer a sua profissão, tendo ido para Moçambique, onde foi jornalista. Conseguiu criar os filhos, porque a mulher tinha alguns rendimentos. Um dos filhos formou-se em Económico-Financeiras, outro chegou a ser juiz do Supremo, outra, professora. Na mesma altura que ele foi castigado, o meu pai, seu compadre, "teve de pedir a demissão" do cargo de gerente do Grémio de Industriais de Lanifícios da Beira Alta e foi proibido de ser funcionário público ou professor, mesmo do ensino particular.

E a minha amiga terminou dizendo-me: "Sabes, os nossos pais tiveram sorte em não serem presos. Um grande amigo comum que era médico (não o médico dos onze filhos) e deputado da AN, opôs-se a essa ordem e conseguiu livrá-los de serem presos."


Escrevi isto num rompante de revolta, directamente para o telemóvel, pelo que peço que me desculpem a escrita pouco cuidada ou com erros.

Marinela St.Aubyn