terça-feira, 27 de dezembro de 2011

As broas de Natal à Moda de Coja e Os Erros do Eduquês





Recebi uma receita de culinária como "Comentário" ao artigo "OS ERROS DO "EDUQUÊS, reflexão de Carlos Fiolhais, professor e cientista ".
Julgo que o autor ("Anónimo") se deve ter equivocado e que provavelmente tencionava escrever a receita num blogue de culinária e talvez tenha falta de vista ou esteja a dar os primeiros passos em informática... Certamente não o fez como resposta ao texto nem deve ter confundido os "Eduquês" com uma espécie de broas de Natal!
Acredito que reflexões sobre o ensino e as suas pedagogias não sejam interessantes para qualquer indivíduo. No entanto quando resolvi iniciar um blogue foi com a intenção de publicar artigos de matemática, já que esta é a minha área, pensando poder criar algo do interesse de alguns jovens, apoiando-os com artigos matemáticos, questões motivantes e propostas de resolução. Contava para isso com o apoio da minha Editora, esperando obter os CDs dos livros de Matemática de que fui autora e coautora... Ainda hoje estou à espera desses CDs e sem eles esse meu projecto tornou-se impossível. Desta forma, resolvi virar-me para a minha outra paixão, a Música, e limito-me a partilhar escolhas minhas, com a remota esperança de que um dia esta página possa vir a ser um blogue.


Como estamos na quadra natalícia e este meu blogue é uma miscelânea de temas soltos, provavelmente desinteressantes, inodoros e insípidos, por que não partilhar esta "receita" que "erradamente" me foi enviada como comentário aos "Erros do Eduquês" e assim poder ir ao encontro de certos possíveis visitantes do meu blogue que enjoam com facilidade quando os temas exigem um pouco mais de ginástica intelectual.
Se não concordou com a reflexão do Prof. Carlos Fiolhais, podia enviar a sua opinião que seria bem vinda...Mas comentar com as broas de Coja só pode ser resultado de uma sentida e incómoda "agressão" do seu universo de interesses que o levou a agredir, por sua vez, quem se expõe, escrevendo e revelando os seus gostos publicamente, ao invés de se refugiar em subterrâneos via email, onde nada se arrisca, tudo se pode dizer, "assinando" trabalhos alheios. 
Sendo assim, aqui fica, ipsis verbis, o "Comentário":

Broas de Natal à Moda de Coja       
Ingredientes 2,5 Kg de abóbora-menina 2 Kg de farinha de trigo 0.5 Kg de farinha de milho 0.5 Kg de açúcar 125 Gramas de fermento de padeiro 0.5 Kg de nozes descascadas 200 Gramas de pinhões descascados 150 Gramas de figos secos 150 Gramas de passas de uva 0.5 Kg de frutas cristalizadas diversificadas 150 Gramas de erva-doce em pó Sal (q.b.) Preparação/Confecção Descasque a abóbora, retire-lhe as sementes e corte-a em cubos regulares. Coloque a abóbora a cozer em água com um pouco de sal. Quando esta estiver cozida, retire-a da água, escorra-a muito bem e deixe-a arrefecer ligeiramente. Misture-a com a farinha, o açúcar, o sal e a erva-doce, num alguidar e amasse tudo muito bem em conjunto. Dilua o fermento num pouco de água da cozedura da abóbora. Junte o fermento diluído à massa, trabalhando-a muito bem. Misture os frutos secos e as frutas cristalizadas previamente cortados em pedaços pequenos, com excepção dos pinhões. Depois de tudo bem amassado, deixe a massa levedar dentro do alguidar, tapada com um cobertor de lã em local morno e sem correntes de ar. Aqueça o forno de lenha. Quando o forno estiver bem quente puxe as brasas para a boca do forno. Traga a gamela com a massa lêveda para junto do forno e começa-se a tender aa broas numa tijela tendedeira previamente polvilhada com farinha. Coloque as broas no forno com o auxílio de uma pá polvilhada com farinha, a fim de cozer, tendo o cuidado de começar do fundo para a boca. Tape a boca do forno. Vá verificando se aa broas não estão a ficar queimadas e, se necessário. abra um pouco a porta do forno. No fim de cozidas, retire as broas do forno e coloque-as a arrefecer.

domingo, 25 de dezembro de 2011

OS ERROS DO "EDUQUÊS", reflexão de Carlos Fiolhais, professor e cientista


OS ERROS DO "EDUQUÊS"

Ficou famosa a invectiva do antigo ministro da Educação Marçal Grilo, quando um dia solicitou que se deixasse de falar "eduquês", o dialecto cerrado e incompreensível com o qual se tenta justificar o "status quo" educativo, para passarem a falar português corrente que todos entendessem. Estava visivelmente incomodado com a obscuridade de alguns chamados cientistas da educação. A expressão ficou e qualquer dia será dicionarizada.

O certo é que, sob o manto diáfano dessa prosa, escondem-se por vezes os maiores erros e outras vezes simples vacuidades, que de tão desprovidas de nexo nem sequer erros chegam a ser. Esses erros são responsáveis em larga medida pelo estado pouco mais do que calamitoso da educação nacional, incluindo em particular o ensino das ciências.

Vale a pena enumerar alguns, quanto mais não seja para impedir disseminações maiores. Uma vez que tal discurso vaporoso é copiado em segunda ou terceira mão de autores bem intencionados mas desligados das realidades ou desactualizados e já foi ou está a ser contraditado noutras paragens, basta citar uma polémica que há poucos anos surgiu nos Estados Unidos. Contra o "eduquês" norte-americano ergueu-se, entre outras, a voz de E. D. Hirsch, Jr., professor na Universidade de Virgínia e autor do "best-seller intitulado "Cultural Literacy". No livro de Hirsch referenciado em baixo e cujo título em português se pode traduzir por "As escolas que precisamos e por que razão não as temos", há um glossário que refere os cinco temas maiores do "eduquês". Vejamos quais são e uma mão cheia de expressões que os sustentam:

  • Concepção instrumental da educação: "aprender a aprender", "aptidão para o pensamento crítico", "aptidões metacognitivas", "aprendizagem permanente".
  • Desenvolvimentalismo romântico: "aprendizagem ao ritmo dos alunos", "escola centrada na criança", "diferenças individuais dos alunos", "estilos individuais de aprendizagem", "inteligências múltiplas", "ensinar a criança e não a matéria".
  • Pedagogia naturalista: "construtivismo", "aprendizagem cooperativa", "aprendizagem por descoberta", "aprendizagem holística", "método de projecto", "aprendizagem temática".
  • Antipatia ao ensino de conteúdos: "os factos não contam tanto como a compreensão", "os factos ficam desactualizados", "menos é mais", "aprendizagem para a compreensão".

Estas expressões podem parecer familiares a alguns leitores, nomeadamente aos que frequentaram escolas de educação ou simplesmente seguiram disciplinas educacionais ainda que noutras escolas. É que elas permeiam muito do que aí se transmite. Apesar de algumas poderem fazer sentido de "per si" (encerram algo de trivial), aparecem normalmente mal baralhadas, confundindo quem as ouve ou quem as lê.

Por exemplo, o "aprender a aprender" (sic) é, em geral, apenas um jogo de palavras que inebria quem as profere. Usa-se também neste contexto o dito proverbial "mais vale ensinar a pescar que dar um peixe". Nesta concepção educativa, interessa mais o instrumento – a cana de pesca – do que propriamente o peixe. Quem diz isso é capaz de ficar a pescar horas perdidas sem pescar nada, não se importando nada com isso. De resto, quem diz isso parte de um erro: que se pode separar o conhecimento factual da atitude para o adquirir. Como se poderão transmitir atitudes em abstracto sem objectos que as exijam?

Outro exemplo: a "aprendizagem ao ritmo dos alunos" pretende inculcar a ideia romântica que os alunos se devem desenvolver naturalmente, sem imposições exteriores. Poderá parecer sensata mas é profundamente ingénua. Muita evidência acumulada desde há muito tempo mostra que a imposição pelos professores de objectivos, prazos, níveis de exigência e recompensas adequadas consegue aumentar em muito a aprendizagem dos alunos. Os alunos, abandonados ao seu ritmo, estão definitivamente condenados ao fracasso.

O construtivismo, por sua vez, é uma doutrina psicológica e sociológica que já conheceu melhores dias. Defende que só as ideias construídas pelo próprio têm consistência suficiente para permanecerem. Há um certo fundo de verdade nessa afirmação, mas é completamente delirante esperar que o menino Joãozinho, que está no nono ano do básico, corra um dia da banheira a dizer "eureka!" tal qual Arquimedes. Podem bem esperar os construtivistas que um aluno construa a lei da impulsão sozinho, ou, a níveis mais avançados, a lei da gravitação universal ou a teoria da relatividade geral.

Por último, desmontemos a frase que "os factos não contam tanto como a compreensão". É claro que os factos contam mais se forem relacionados entre si, podendo nós chamar compreensão a essa visão global. Mas estas relações, se forem bem estabelecidas (isto é, comprovadas), são evidentemente novos factos. Portanto, os factos e a sua compreensão são inextricáveis. Como diz Hirsh: "Se a compreensão depende dos factos, é simplesmente contraditório louvar a compreensão em detrimento dos factos".

 Muito mais se poderia dizer. Poder-se-ia mostrar extensivamente como é absurda uma escola sem currículo, uma escola sem avaliação e uma escola sem o lugar central reservado ao professor. Todo esse absurdo seria inócuo se ele não dominasse quase por completo o Ministério da Educação português e, por osmose, a generalidade das nossas escolas. Não se tratará da influência nefasta de um partido ou de outro, pois todos os partidos que têm passado pelo governo têm decerto culpas no seu cartório. Não haverá decerto uma exclusiva responsabilidade individual de um governante. Mas, no passado, houve ministros que, em momentos de maior clarividência, interpelaram o "eduquês". E agora?

(Transcrito de O Primeiro de Janeiro. Escrito por Carlos Fiolhais, professor e cientista)
Do site "Casa da Matemática", do meu colega e amigo Dr. José Leal:
http://www.prof2000.pt/users/casamat/index.htm

sábado, 17 de dezembro de 2011

Cesária Évora partiu hoje

Oh nha gente, nha tristeza ca tem medida!
Un voz d'ouro que no ca ta´squecê!

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Cordis_Um arranjo sobre um exercício do Mestre Jorge Gomes...

Cordis num concerto na Biblioteca Joanina, no passado dia 26 de Novembro 2011, interpretam um arranjo sobre um exercício do Mestre Jorge Gomes...

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Bach. Cantata BWV 147. 1

Uma cantata de puro Bach dirigida pelo grande maestro Nikolaus Harnoncourt

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

"Dança Estival", de Francisco Filipe Martins (1998)


Mais uma composição de Francisco Martins, desta vez uma autêntica peça clássica para guitarra. A interpretação é de Francisco Martins, em guitarra de Coimbra, e de Rui Pato e Humberto Matias, em guitarra clássica.

CONJUNTOS ACADÉMICOS DA COIMBRA ANOS 60

Do blogue "Penedo d@ Saudade",

publicado

Sexta-feira, 7 de Outubro de 2011


Faz hoje duas semanas que faleceu o Zé Niza. A notícia atingiu-me, naquela manhã de sexta-feira, como uma pedrada que entra pela janela do carro. E enquanto o locutor resumia a sua vasta obra, o seu enorme talento de músico e compositor, a par de uma carreira multifacetada, da medicina à política, da gestão de programas de TV à produção discográfica, eu recordava a sua simplicidade e desprendimento, o contacto afável e a disponibilidade com que, na Coimbra dos anos 60, o Zé dava dicas aos músicos mais novos; ele, que era já um “senhor” na guitarra de jazz.

Estávamos em 1968/69. Os Álamos iam gravar dois singles de 45 rotações para a Sonoplay e precisavam de canções inéditas. Para um “conjunto yé-yé” à boa maneira da época, cantar em português cheirava a bafio, a pó de arroz, a “nacional cançonetismo”… O Chico Fininho estava ainda para nascer e o grande êxito dos Sheiks era o Missing You. Por isso, os temas seriam cantados em inglês. Mas tínhamos decidido que uma das faixas a gravar seria cantada simultaneamente em português e inglês, à maneira do Chove chuva do Sérgio Mendes & Brasil ‘66.

A música era do Rui Ressurreição e estava já pronta, depois de uma tarde passada a partir pedra na sala de ensaios que ocupávamos na ala nordeste da AAC. Faltava a letra e o Rui sugeriu que a pedíssemos ao Zé Niza ou à Isabel, sua mulher, cuja formação em germânicas facilitaria a escrita bi-lingue. Lá mais para a noite, estávamos no Mandarim, o café onde sempre poisávamos, numa das mesas debaixo das escadas que subiam ao andar de cima. Chega o Zé Niza, ouve o trautear da melodia – muito simples, como era timbre da época – pede-se um guardanapo ao Sô Talina e, enquanto se beberrica mais um fino, é esboçada a parte portuguesa da letra que viria depois a ser integrada pela Isabel e a receber o nome de Peter & Paul:

Eu não sei porquê

Não sabe ninguém
Se Pedro tem fome
Seu irmão não tem

Eu não sei porquê
Não sabe ninguém
Se Paulo tem casa
Seu irmão não tem


Completamente ao lado do que eram os standards de um conjunto yé-yé, mas perfeitamente alinhada com as preocupações de quem viria a escrever na sua autobiografia …agradeço à vida o que me deu. Não tenho livro de reclamações a não ser para lutar pelos direitos dos pobres, dos humildes e para que haja mais justiça e solidariedade em Portugal. Não há qualquer dúvida: Zé Niza era um produto da Coimbra solidária dos anos 60, da Coimbra onde germinou a canção de intervenção que viria a dar os seus frutos na década de 70.

O Zé Niza começou a acompanhar fado de Coimbra à viola, arte que trazia já de Santarém. Mas cedo resolveu experimentar a guitarra eléctrica, tendo fundado a Orquestra Ligeira do Orfeon Académico de Coimbra com o Rui Ressurreição – pianista, xilofonista e acordeonista de mão-cheia, que julgo ter tocado com o Sivuca – o Daniel Proença de Carvalho – contra-baixo, viola-baixo, que me lembro de ver num Sarau da Queima a cantar música mexicana no Trio Los Dos, assim chamado por haver sempre um que faltava aos espectáculos – o Joaquim Caixeiro na bateria e o Zé Cid como vocalista. Era um quinteto com o instrumental e o repertório típico da transição da década de 50 para a de 60. Interpretavam música brasileira, italiana, francesa, americana… Eram exímios nos arranjos vocais e muito bons a interpretar bossa-nova. Estávamos na época de O Pato e do Desafinado. Quanto ao Zé Cid, o único que viria a enveredar pelo profissionalismo, fora pouco antes pianista e vocalista dos Babies, conjunto do final da década de 50, precursor dos conjuntos académicos de Coimbra, que poderá ter sido a primeira banda rock portuguesa (vide foto logo abaixo).

Mais tarde, já sem o Zé Cid, os quatro instrumentistas da Ligeira do Orfeão formaram o Quarteto de Jazz do Orfeon. Mário Castrim, o verrinoso crítico televisivo, tentou deitá-los abaixo por não conceber um quarteto de jazz sem metais e com guitarra eléctrica, o que muito enfureceu o Zé Niza, que lhe remeteu de presente uma lista de consagrados quartetos de jazz com idêntica formação.

Ainda com a formação clássica dos conjuntos ligeiros – piano, contrabaixo, bateria, guitarra e vocalista – mas com malta uns anos mais nova e um repertório mais alegre, existiam Os Scoubidous. Estávamos na época do twist, rock e slow-rock, antes da hegemonia anglófona, ritmos que eles interpretavam na maravilha, nos seus smokings reluzentes, cheios de estilo. Começaram muito novos, ainda no liceu. Una zebra a pois foi o seu primeiro êxito. O grande maestro era o Tozé Albuquerque, o pianista. Tinham o Zé Tó à bateria, um tipo com ar de malandreco que usava uns óculos escuros estreitinhos, que viriam décadas mais tarde a ser copiados – estou certo – pelo Pedro Abrunhosa. No contrabaixo e acordeão eléctrico estava o meu colega de curso (em Coimbra e no Porto) António Santos Andrade, enquanto na guitarra eléctrica – de caixa semi-acústica, à Bill Haley – tocava o seu irmão Zé, que um belo dia foi proibido pelo clínico de fazer coros, abrindo-se ao Alberto “Pente” a oportunidade de entrar para o grupo e fazer depois uma perninha de saxofone. Deixei para o fim o vocalista, o Júlio Maia ou “Júlio Scoubidou”, brilhante a interpretar em qualquer língua. Talvez por ser aluno de Letras, tirava minuciosamente as letras das canções ao gira-discos, com uma trabalheira danada, sendo, porventura, o único vocalista daquela época que as não aldrabava. Estávamos no início dos anos 60 e só muito mais tarde os discos começaram a trazer consigo as letras.

Também com este tipo de instrumental clássico, lembro-me ainda do conjunto Os Alibábás, que tinha como mentor e baterista o Braga da Cruz.

Estávamos nisto quando surgem em Inglaterra The Shadows e Cliff Richard a tocar The Young Ones e, em França, Les Chats Sauvages com Est-ce que tu le sais e o Twist à Saint-Tropez. Foi a revolução! O piano tinha ido às malvas! O contrabaixo, atirado para o lixo, dava lugar à guitarra-baixo. Toda a força estava agora em 3 guitarras eléctricas, ora “rockeiras” ora roçando uma maviosidade piegas, sem caixa de ressonância (os “bacalhaus”), uma bateria e um vocalista. Quase em simultâneo apareciam The Beatles, com o mesmo instrumental mas onde a função do vocalista era desempenhada pelos três guitarras, que berravam, desalmadamente, yeah, yeah, yeah! Estávamos definitivamente no reino dos “conjuntos yé-yé”.

Coimbra não perde a oportunidade… e surgem Os Álamos, conjunto composto exclusivamente por universitários, com forte prevalência das Engenharias, que viria ser o conjunto de Coimbra mais disputado para tudo o que fosse baile por esse país fora, das passagens de ano aos carnavais e à Queima, dos finalistas de liceu aos bailes das faculdades, do Casino do Estoril ao Hotel Savoy na Madeira. Os Álamos duraram de 62/63 a 69, tendo conhecido mais do que uma formação-base. Com forte componente vocal nos seus arranjos musicais, eram especialmente dotados na música Beatle, mas tocavam tudo o que estivesse dar (desde que não fosse “nacional cançonetismo”), do slow para constituir família ao rock mais assanhado. Ainda que o primeiro disco tivesse saído mauzinho, eram um dos melhores conjuntos de baile portugueses, pedindo meças aos grupos profissionais com que alternavam.

A estrela do cartaz foi, até ser apanhado pela tropa, o Chico Faria, mais conhecido por “Chico dos Álamos” ou “Chico dos Milionários”, que, conforme dizia o Sô Chico, porteiro da Associação Académica, era o que tocava microfone; a forma como interpretava o I can’t stop loving you ainda hoje estará na memória de quantos iniciaram os seus namoros dançando ao som daquela música. No primeiro ano, o Chico deixava para um segundo vocalista, o Zé Gouveia, algumas das músicas em francês e italiano. Na bateria começou o Nuno Figueiredo, que abandonou o conjunto mais cedo por ter ido para o Técnico, entrando para o seu lugar o Zé Pereira, que com o Chico fazia a dupla dos mais brincalhões, armando histórias e barracadas por onde o conjunto passava. Nos 3 “bacalhaus” que, quando necessário, gingavam em palco à maneira dos Shadows, alinharam, anos a fio: como guitarra-solo o Phil Colaço, que ainda hoje se diverte a solar como o Hank Marvin; como guitarra-ritmo o Duarte Brás, açoriano dos Corsários das Ilhas, a quem o Chico também cedia o lugar em algumas músicas, que viria a formar o duo de música popular Duarte & Ciríaco; e o Zé Veloso que, por ter sido o último guitarra a chegar ao conjunto foi obrigado a aprender o ofício de guitarra-baixo e ainda tinha que “fazer as séries” (o alinhamento do espectáculo, como se diria hoje). Mas bem me vinguei deles ao assumir o difícil cargo de tesoureiro, uma espécie de ministro das finanças a quem cabia cortar nos vales de caixa e demais mordomias, já que a compra dos instrumentos e aparelhagens nos obrigou a vários e penosos anos de austeridade, sem “troika” ou “paitrocínio” que nos resgatasse.

Naturalmente, os Álamos não foram os únicos a aderir à moda das 3 guitarras, tendo aparecido outros mais, de que recordo: Os Lordes, onde o viola-ritmo era o Luís Requixa, meu companheiro nos Piratas da Praia de Mira, e o baterista era o Luisinho Monteiro; Os Pops, resultantes da fusão dos Lordes com os Protões, onde era viola-ritmo o Joca Colaço, que chegou a integrar os Álamos numa temporada de Verão na Madeira, e o viola-baixo era um tipo altíssimo, o Nando; mas recordo, sobretudo, Os Boys, que viriam a transformar-se em Hi-Fi, conjunto que, em determinada altura, se assumiu como “challenger” dos Álamos e com o qual mantínhamos uma saudável rivalidade.

Os Boys – cujo nome não tinha qualquer conotação pejorativa, já que à data nem partidos políticos existiam – tinham como ponto forte uma boa parte do repertório dos Shadows, graças ao virtuosismo do viola-solo Carlos Correia, mais conhecido por “Bóris”, que acompanhou o Zeca Afonso em vários discos. De início, o vocalista era o Victor Ferreira; e também o meu cunhado António Dias Figueiredo tocava harmónica em algumas músicas. Lá estavam o Xana Rebocho Vaz na guitarra-baixo, o Manecas na guitarra-ritmo e o Tonã Vieira Lima na bateria.

A malta dos Boys vivia na Cumeada, tal como eu. Ainda no liceu, sonhávamos com a possibilidade de vir a tocar em público. Numa bela noite, pelas fogueiras do S. João, ainda não havia Álamos nem Boys nem o mais que fosse, dei comigo a tocar meia dúzia de músicas com o Manecas, o Tonã e o Victor Ferreira no intervalo de um assim chamado “baile de sopeiras”, no campo de basket dos Olivais, donde só não fomos corridos porque, no meio da refrega, a música era o que menos interessava a quem se espremia na pista. Tocámos então com os instrumentos do conjunto de serviço – Ilídio Martins – que era o melhor conjunto futrica de Coimbra. Foi a primeira vez que o Tonã se sentou numa bateria…

Voltando aos Boys, de um ano para o outro apareceram transfigurados em Hi-Fi, a tocar de forma muito mais “profissional”, com novo baterista – António Freitas – e com a novidade de terem como vocalista uma rapariga – Ana Maria Delgado – coisa nunca vista no meio dos conjuntos yé-yé. A Ana Maria acabou por sair mas ainda gravaram em conjunto um 45 rotações com 4 faixas – todas em inglês, como não podia deixar de ser – disco que teve a colaboração do Rui Ressurreição (órgão e piano) e que ficou realmente muito bom.

Mas, assim como de súbito apareceram, de súbito acabaram. Eles e os demais conjuntos académicos dos anos 60 foram-se dissolvendo um após outro, à medida que os músicos iam acabando os seus cursos – ou eram chamados para a tropa – e a dança se transferia dos salões de baile, do Bar das Medicinas e dos ginásios de liceu para as boîtes e discotecas.

Os Álamos foram os mais tenazes, conseguindo viver 7 anos, tantos quantos eram necessários para terminar um curso de engenharia (6) com direito a mais um para os descontos. Nos últimos anos, o conjunto tinha elementos a estudar em Coimbra, no Porto e em Lisboa. Só dois foram totalistas (Phil Colaço e Zé Veloso). As baixas dos que saíam eram colmatadas com os melhores elementos dos grupos em extinção: entraram o Rui Ressurreição da Ligeira do Orfeão/Clube de Jazz, o Tózé Albuquerque dos Scoubidous, o Luizinho Monteiro dos Lordes/Pops e o “Bóris” dos Boys/Hi-Fi que, sem que eu ainda hoje perceba como, passou a cantar espectacularmente, cumprindo o duplo papel de solista no canto e na guitarra, qual Mark Knopfler dos Dire Straits.
Com as novas entradas, o conjunto ganhou melhores músicos e passou a integrar um órgão e, algumas vezes, piano. Aumentou-se a complexidade dos arranjos. Subiram a qualidade musical e o cachê. Mas o grupo manteve-se invariavelmente ligado à vida académica, tendo acompanhado em várias digressões o Coro Misto da Universidade de Coimbra e o Orfeon Académico de Coimbra. E sempre terminava as actuações com I saw her standing there, tal como o Orfeon as terminava com o Amen… até ao dia em que tocámos pela última vez, no final do ano lectivo de 68/69. Depois disso, foi cada um à sua vida, que a profissão de músico não estava nos nossos horizontes.


Que me perdoem os leitores, um texto que saiu mais extenso do que o habitual. Mas a morte inesperada do Zé Niza lembrou-me que outros companheiros se foram embora já, alguns, porventura, sem uma palavra escrita que ficasse a recordar a sua passagem pela música que também e (tão bem) se fazia em Coimbra, pois que nem só o fado e a balada por lá se tocavam. Foi a pensar em quantos me acompanharam e, em especial, na memória dos que já partiram, que a crónica de hoje foi escrita.


Um abraço para todos eles. E a saudade que nos deixam o Zé Niza, o Rui Ressurreição, o Manecas, o Luís Requixa, o Joca Colaço, o Nando e o Ciríaco.

Zé Veloso


Notas soltas:
- Nunca me cruzei com os “Babies”, os quais nasceram em 1958 e terminaram em 1960. No blogue IÉ-IÉ (http://guedelhudos.blogspot.com) – Obrigado, Luís Pinheiro de Almeida! – consta a biografia do grupo e a foto que incluí acima, identificando os elementos que o compunham. Da esquerda para a direita: António Portela (acordeão), Luiz Cabeleira, primo de José Cid, já falecido, membro eventual (bateria), José Cid (voz e piano), António Igrejas Bastos (voz e contrabaixo) e Rui Nazareth (guitarra eléctrica).
- Nesse mesmo blogue poderá consultar-se a história e a composição dos “Lordes”, “Protões” e “Pops”, no tópico relativo aos “Pops”. São conjuntos que a minha memória não reteve com tanta nitidez.
-“O Álamos” actuaram ainda, de forma continuada, com outras composições: (i) - antes da formação dos “Boys”, o “Bóris” tocou com os “Álamos” na posição de guitarra solo, passando o Colaço para o ritmo e o Duarte para vocalista e coros; (ii) - após a saída do Chico Faria para a tropa, utilizou-se uma formação tipicamente à Beatle, com os guitarras Phil Colaço, Duarte Brás e Zé Veloso e o baterista Zé Pereira.
- Na fase final dos “Scoubidous”, saiu o Aberto “Pente” e entrou um novo saxofonista, cujo nome ficará aqui registado logo que alguém mo faça chegar.

Marinela St. Aubyn disse...
Li com interesse o seu artigo sobre os conjuntos académicos dos anos 60, que conheci muito bem. Muito humildemente, gostaria de acrescentar mais alguma história, se bem que não consiga recordar bem os nomes de todos os elementos dos grupos de que vou falar. Nos anos 60, a Tuna Académica tinha um grupo de música ligeira, cujo acordeonista era o Humberto Matias e ele poderá recordar os nomes dos restantes elementos. Eu lembro-me porque fui acordeonista da Tuna nessa altura. Tocava essencialmente na orquetra de tangos. Entrei com 16 anos e apenas me mantive dois, apesar de ter sido muitíssimo bem tratada pelos meus colegas. Com alguma pena transferi-me para o Orfeão Misto, com o qual tinha mais liberdade de poder sair nas digressões, uma vez que havia outras raparigas, o que não sucedia na Tuna que era exclusivamente masculina, até à minha entrada. No Orfeão Misto integrei a orquestra ligeira com o Francisco Brito, o Zé Maria(?) que tocava guitarra eléctrica, o Zé Luís (?), contrabaixo...e o resto só perguntando ao Chico Brito. Estes conjuntos também abrilhantaram muitas festas, saraus e bailes dos estudantes e, nessa altura, éramos tão poucos que nos conecíamos todos. Um outro grupo a que pertenci foi ao "conjunto de Nelson Martins". O Nelson era pianista (e muito bom), eu era a acordeonista, o Frias Gonçalves o guitarra eléctrica, o Zé Pereira (de Medicina) o baterista e o Humberto Cordeiro (de Letras) o vocalista. Ainda tivemos por uns tempos como baterista o Braga da Cruz (hoje jornalista e repórter). Em muitos bailes, sobretudo nos do bar de Medicina, actuavam três conjuntos: a Orquestra Ligeira do Orfeão, com Cid, Carlos Ressurreição, Zé Niza, Caixeiro, Portela (algumas vezes)e Proença de Crvalho; os Scoubidous, com "Julinho", meu amigo e vizinho...não recordo os outros nomes; o conjunto de Nelson Martins, a que eu pertenci. Muitas horas de actuação somei nessas festas. Sei que tínhamos mais de cem temas no reportório. É claro que não tivemos um tempo de existência muito longo, até porque eu parei com esta actividade para me dedicar a cem por cento ao curso, mas existimos, trabalhámos muito, apesar de não termos deixado registos. Se quiser confirmar tudo o que disse e completar com mais dados, poderá porguntar ao Humberto Matias, ao Chico Brito e ao Frias Gonçalves. Parabéns pelo seu blogue que gosto muito de visitar. Saudações académicas...e musicais, Marinela St. Aubyn

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

"Trova da Planície", de Francisco Martins e Orl.de Carvalho_Canta António Bernardino


Um Fado de Coimbra gravado há 41 anos. É mais uma composição do Francisco Martins, com poema de Orlando de Carvalho. É de enorme qualidade a interpretação do António Bernardino, excelente a guitarra do Francisco Martins e a viola de mestre de Luis Filipe. Perdeu-se a matriz deste disco que ardeu no incêndio do Chiado.

domingo, 20 de novembro de 2011

"As pombas"_Zeca Afonso e Rui Pato, ao vivo, no Avenida_Coimbra,1967

Uma autêntica relíquia!!! Um inédito! Uma gravação ao vivo de 1967 que agora se descobriu. Nela ouvimos a afinação da viola, fragmentos de diálogos entre  Zeca Afonso e Rui Pato ......e "As Pombas" que afinal "voltaram" para nós.


segunda-feira, 7 de novembro de 2011

"Mundo de Ilusões", de Francisco Martins



Um inédito de Francisco Martins, "Mundo de Ilusões", do álbum "Convívios Musicais"(2006).

FRANCISCO MARTINS começou a aprender guitarra de Coimbra aos 12 anos com António Portugal.

Faz a sua primeira apresentação em público aos 13 anos, no casamento de Luiz Goes, no Hotel Bragança em Coimbra, sendo acompanhado pelos irmãos Barros Neves e tendo cantado Carlos Encarnação, Robalo de Andrade e João Farinha.

Em Outubro de 1962, com 16 anos, participa pela primeira vez em um espectáculo, tr...ansmitido em directo pela RTP, no Pavilhão dos Desportos em Lisboa, com o seu grupo constituído por FRANCISCO MARTINS e Manuel Borralho (guitarras), Rui Pato (viola), Robalo de Andrade e João Farinha (cantores).

Nesta fase, António Portugal orientava os ensaios dos seus pupilos que com ele aprendiam quer a tocar guitarra quer a maneira de tocar o Fado de Coimbra, o que lhe valeu a alcunha de "Portugal dos Pequenitos".

Em Julho de 1964 participa no "Encontro da Saudade" no Pátio da Universidade de Coimbra, tendo tido o privilégio de descerrar a lápide em homenagem a Augusto Hilário, por ocasião do seu centenário. Com o seu grupo (Francisco Martins, José Ferraz de Oliveira, Rui Pato, António Bernardino e João Farinha) faz uma serenata nas escadas da Capela da Universidade, espectáculo este transmitido em directo pela RTP.

Ainda em 1964 grava o seu primeiro disco com António Portugal e António Bernardino.

Nos finais dos anos 60 integra o grupo de António Portugal, tendo participado com este em vários espectáculos, nomeadamente na RTP e grava com ele, em 1970, o seu segundo disco, o álbum "Flores para Coimbra", sendo acompanhado à viola por Luís Filipe e, mais uma vez, a voz de António Bernardino.

Neste disco inclui dois fados de sua autoria: " E ALEGRE SE FEZ TRISTE" e "TROVA DA PLANÍCIE".

Após um interregno marcado pelo "luto académico" em 1969, participa nos anos 80 em algumas actuações com António Portugal, Rui Pato e Luís Filipe.
ele se formou em medicina no ano de 1973
e que se especializou em Neurorradiologia , tendo sido até ao ano 2000
director do Serviço de Neurorradiologia dos HUC... FICA A BIOGRAFIA
QUASE COMPLETA.


Em 1986 grava para a PolyGram o seu terceiro disco, o álbum "CANÇÃO DA PRIMAVERA", exclusivamente instrumental, onde inclui seis variações de sua autoria e quatro de ARTUR PAREDES. É acompanhado por RUI PATO. Este álbum foi então nomeado pata o prémio "SETES DE OURO".

Em 1992 e 1993 liderou o Grupo de Fados do Oefeon dos Antigos Estudantes de Coimbra, acompanhado por Rui Pato e Humberto Matias.

Em 1996 compõe um tema para a homenagen a David Mourão Ferreira, que a RTP2 transmitiu no programa "Acontece".

Muito mais poderíamos dizer sobre Francisco Martins...
Para além de compositor e intérprete de guitarra de Coimbra, formou-se em medicina no ano de 1973 e especializou-se em Neurorradiologia , tendo sido até ao ano 2000 director do Serviço de Neurorradiologia dos HUC.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Faleceu o Dr. Antero de Barros, ilustre figura de Cabo Verde


Faleceu nesta segunda-feira, 31/11/2011, em Lisboa, Antero Barros, ilustre professor de várias gerações de cabo-verdianos, dirigente e praticante do desporto, e antigo presidente da União Cabo-verdiana Independente e Democrática (UCID).
Foi professor das disciplinas de inglês e geografia no liceu Gil Eanes (agora Ludgero Lima), em São Vicente. Entre 1957/58 ocupou o cargo de vice-reitor daquela instituição do ensino, coadjuvando o então reitor, Baltasar Lopes da Silva. Mais tarde, leccionou no Liceu Domingos Ramos, na Cidade da Praia.
Ele foi presidente da Federação Cabo-verdiana de Futebol e membro do Comité Olímpico Internacional. Como praticante do desporto, detém o título de campeão de golfe em Cabo Verde e Angola, onde estava quando se deu a independência de Cabo Verde e das outras antigas colónias portuguesas.
Na sua coluna “POSTAL DE LISBOA”, no jornal A Semana, a jornalista Otília Leitão recorda Antero Barros como “o único negro de três rapazes entre 58 raparigas do seu curso de Filologia Românica” que “presenciou o primeiro discurso de Amílcar Cabral na 17º Assembleia das Nações Unidas, em 1962...”
Através de Otília Leitão ficamos ainda a saber que Antero Barros fez parte da equipa de golfe de Portugal, foi sócio e jogador do Lisbon Sport Club e jogou com o Conde de Barcelona, D. Juan Carlos, e outras figuras da época. Antes da independência de Cabo Verde era Director dos Serviços de Educação e depois foi professor na Praia ao longo de 20 anos.
O falecido era pai de oito filhos, entre eles, “Nho Balta” (Baltasar Barros), Combatente da Liberdade da Pátria e conhecido intérprete da música cabo-verdiana.

A linda Angola...pintada e cantada magnificamente!!!


Angola - Pintura - Arlete Marques por CAZIMAR

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Braga, 22 de Outubro de 2011

Octávio Sérgio, à esquerda e Nuno Tavares, ao centro, dois amigos, em Braga, no sábado, 22 de OUTUBRO, no espetáculo promovido pela Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra em Braga.

domingo, 30 de outubro de 2011

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

FRANCISCO MARTINS_ GUITARRA DE COIMBRA E PIANO: "CONVÍVIOS MUSICAIS"


Francisco Martins, fez a sua última gravação em 2006, num CD editado por ele mesmo a que deu o título de "Convívios Musicais" e pretendeu, nestas músicas, traduzir os "estados de alma" como escreveu no folheto do CD.
Neste tema, que dá o nome ao CD, ele é acompanhado unicamente pelo seu filho José Filipe Martins, ao piano.

sábado, 22 de outubro de 2011

"Despedida", de Francisco Martins


Francisco Martins em guitarra de Coimbra, acompanhado por Manuel Rocha ( violino) , Rui Pato e Humberto Matias (Guitarra Clássica), no tema de sua autoria "Despedida"; tema nº 13 do CD "Primavera 2" gravado em 1986 pela Philips/PolyGram.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Improviso (Francisco Martins & Rui Pato)


"Improviso", por Francisco Martins (autor do tema) e Rui Pato, dois intérpretes de primeira água_faixa nº 12 do CD "Primavera 2", gravado em Março de 1996.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

CORDIS



Outra interpretação...diferente, mas não menos linda!!! Este diálogo do piano de Paulo Figueiredo com a guitarra de Bruno Costa é sublime! -" Variações em Si menor", de Artur Paredes, por Cordis.

CORDIS 2

"Foi um retumbante êxito o lançamento do Cordis 2 no Teatro Gil Vicente, em Coimbra, com Bruno Costa à guitarra e Paulo Figueiredo ao piano, com mais alguns amigos. Casa cheia, o que é raro neste tipo de eventos. Espetáculo excelente a prever que o disco seria uma obra de arte. E aí está ele, de facto, como mais um disco a não perder. Parabéns ao grupo." (Do blogue de Octávio Sérgio, http://guitarrasdecoimbra2.blogspot.com/)

Uma das minhas preferidas e uma magnífica interpretação_ "Variações em si menor, de Artur Paredes"

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Morreu José Niza

Morreu José Niza
O compositor, médico e ex-deputado José Niza morreu esta madrugada. Personalidade multifacetada, deixa um legado musical impar.

José Niza nasceu em Lisboa, a 16 de Setembro de 1938. Estudou medicina em Coimbra, onde, em 1961, fundou a Orquestra Ligeira do Orfeon Académico de Coimbra, conjuntamente com José Cid, Proença de Carvalho, Joaquim Caixeiro e Rui Ressureição.

Foi responsável pela produção da editora Arnaldo Trindade, Lda. (Discos Orfeu). Como produtor, ou director musical, José Niza foi responsável pela gravação de discos como Gente de Aqui e de Agora, de Adriano Correia de Oliveira (1971), Eu Vou Ser Como a Toupeira (1972), Venham Mais Cinco (1973), Coro dos Tribunais (1974) e Com as Minhas Tamanquinhas (1976) todos de José Afonso e O Guerrilheiro (1974) de Luís Cília

Foi autor de muitas canções para intérpretes como Adriano Correia de Oliveira, Paulo de Carvalho, Carlos do Carmo, Carlos Mendes, Duarte Mendes, Tonicha, Teresa Silva Carvalho, Vitorino, Janita Salomé, Rui Veloso e Samuel.

José Niza venceu quatro Festivais RTP da Canção como compositor e foi o autor da letra da canção "E Depois do Adeus", interpretada por Paulo Carvalho e que ficou para a história como uma das senhas musicais do Movimento das Forças Armadas na revolução de 25 de Abril de 1974.

Depois do 25 de Abril foi director de programas da RTP, sendo o responsável pela compra da primeira telenovela pela televisão pública, "Gabriela Cravo e Canela".

Ler mais: http://aeiou.visao.pt/morreu-jose-niza=f623946#ixzz1YlpzB43w

ADRIANO CORREIA DE OLIVEIRA - CANTAR DE EMIGRAÇÃO



Album - ADRIANO - Obra Completa
GENTE DE AQUI E DE AGORA E OUTRAS CANÇÕES
FAIXA 1 - Cantar de Emigração
Rosalía de Castro-José Niza/José Niza

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Pedro Osório - O Beijo do Sol

Um trabalho maravilhoso!


Caros amigos,

Acabei de me estrear a fazer e montar um video. É um video-clip sobre
uma música de um disco meu que está para sair.

Coloquei-o no Youtube e, como sabem, só acima de um certo número de
visionamentos é que ele aparece nos motores de busca.

Peço-vos então que visitem este endereço
http://www.youtube.com/watch?v=FyRUwKUigMo,

Pedro Osório

sábado, 10 de setembro de 2011

Obra poética integral de Zeca Afonso analisada pela primeira vez em tese de doutoramento

Obra poética integral de Zeca Afonso analisada pela primeira vez em tese de doutoramento




DR

José Afonso “é uma das principais vozes poéticas do século XX” em Portugal, conclui uma investigação inédita sobre o poeta, músico e compositor que, pela primeira vez, analisou a sua obra integral, numa perspetiva literária.
Da autoria do investigador lusodescendente Alexandre Pereira Martins, a tese de doutoramento em Filologia Portuguesa foi defendida em julho na Universidade de Colónia, na Alemanha, abordando a totalidade da obra poética, musicada e a não musicada, do autor.
“O meu doutoramento procura abordar, por completo, a totalidade da poesia de José Afonso, incluindo os poemas que foram musicados, numa perspetiva filológica”, disse o investigador à Lusa.
Partindo da “convicção de que uma obra lírico-musical de três décadas e mais de 250 textos líricos (mais de metade não musicados), merece um enquadramento mais complexo, além dos rótulos óbvios “oposição ao Estado Novo”, “canção de intervenção”, “Revolução dos Cravos”, a investigação teve como objetivo demonstrar a estética poética que está por detrás da obra de José Afonso, assim como o percurso que o caracteriza como escritor lírico”, refere Alexandre Martins.
A tese vai ser publicada no início de 2012, na Alemanha, pela editora de divulgação científica Dr. Kovac, de Hamburgo, que compreende uma série dedicada aos estudos lusófonos. Está prevista também a sua tradução para edição em Portugal.
(In "Diário As Beiras.pt", Sábado, 10 de Setembro de 2011)

LAVADEIRAS NO MONDEGO


No dia 7 de Agosto de 2010, a Associação Desportiva e Recreativa dos Lugares de Casal da Misarela, Misarela, Vale de Canas, Barca e Ribeira, com o apoio da Junta de Freguesia, organizou na Praia Fluvial de Palheiros e Zorro, uma iniciativa de recriação das Laveiras da Freguesia de Torres do Mondego, como forma de as homenagear

Não sei que canta esta linda balada...não é o Zeca Afonso, mas é outra belíssima voz!

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Jorge Carlos Fonseca é o quarto Presidente da República de Cabo Verde

Actualmente é jurisconsultor, advogado e professor universitário. Foi oficialmente apoiado pelo MpD nesta corrida presidencial.


Foi director-geral da Emigração (1975-1977) e Secretário-Geral (1977-1979) do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Cabo Verde. Foi membro fundador do Movimento para a Democracia, MpD. Já entre 1991 a 1993 foi Ministro dos Negócios Estrangeiros.

É titular do estatuto de combatente da liberdade da pátria, possui várias condecorações pelo Estado de Cabo Verde.

Tem um percurso académico no estrangeiro. Foi assistente graduado na Faculdade de Direito de Lisboa durante sete anos e professor convidado de Direito e Processo Penal no Instituto de Medicina Legal de Lisboa (1986) e Director Residente e Professor Associado Convidado na Universidade da Ásia Oriental (Macau- 1989 e 1990). Actualmente é presidente e professor do Instituto Superior de Ciências Jurídicas e Sociais (ISCJS) e presidente do conselho de administração da fundação «Direito e Justiça». É director da Revista «Direito e Cidadania».

Jorge Carlos Fonseca é casado e pai de 3 filhas.

Esta foi a segunda vez que Jorge Carlos Fonseca se candidatou às presidenciais. A primeira foi em 2001 e na altura na mesma corrida estavam Carlos Veiga, David Hopffer Almada, Pedro Pires, que acabou por vencer, e Onésimo Silveira.

Jorge Carlos Fonseca é o quarto Presidente da República de Cabo Verde.


sexta-feira, 29 de julho de 2011

Gilbert O'Sullivan - Alone Again (original version)


Em 1972, O'Sullivan atingiu o estrelato internacional com a balada " Alone Again (naturalmente) ", de que é autor, tendo chegado ao nº 3 no Reino Unido; nº 1 nos EUA e passou seis semanas no n º 1 on the Billboard Hot... e vendendo quase dois milhões de cópias. Com esta canção O'Sullivan ganhou o seu primeiro disco de ouro...

NOTA: Se clicarem duas vezes sobre o "player", poderão ver o videoclipe no Tou Tube, pois aqui não se consegue.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Trilhos - Ponte Romana_ "novos caminhos da guitarra portuguesa"

Trilhos - Ponte Romana by Trilhos
"Uma fusao de instrumentos e estilos, num conjunto de ambientes, por vezes provisados, em caminhos que vão desde o Jazz à nossa música tradicional, num cenário inovador da nossa cultura musical, e na performance da Guitarra Portuguesa."

sábado, 23 de julho de 2011

Morreu Amy Winehouse


A polícia inglesa confirmou hoje a morte da cantora britânica Amy Winehouse, encontrada sem vida, aos 27 anos, num apartamento em Camden Square, Londres.

Jorge Humberto


Jorge Humberto




A primeira transferência de um jogador português para Itália foi há 50 anos, quando um avançado da Académica foi contratado pelo “colosso” Inter de Milão.
Jorge Humberto só acreditou que era o “mago” Helenio Herrera, então treinador dos nerazzri, do outro lado da linha depois de receber em casa um telegrama.


Texto Tiago Pimentel


Como tantos outros estudantes em Coimbra, Jorge Humberto estava ocupado a preparar-se para os exames. Mas o estudo foi subitamente interrompido por uma chamada que iria mudar a vida do jovem avançado da Académica e estudante do 5.º ano de Medicina: do outro lado da linha alguém se apresentava como Helenio Herrera, treinador do Inter de Milão. O propósito da chamada era comunicar-lhe o interesse da equipa italiana em contratá-lo.


A reacção instintiva foi pensar que se tratava de uma brincadeira. “Está bem, está bem. Adeus”, despachou Jorge Humberto desligando de seguida. Mas o telefone voltou a tocar pouco depois naquela tarde de Junho de 1961. “Deixa-me estar que estou ocupado com os meus estudos”, pediu. Perante a insistência do interlocutor na proposta de transferência para Itália, decidiu desmascará-lo: “Se é verdade o que o senhor está a dizer, mande um telegrama para confirmar.” As razões para não acreditar no convite eram mais que muitas. Para começar, vinha “só” de um dos maiores clubes da Europa. Depois, o facto de o telefonema ser feito pelo próprio “mago” Helenio Herrera, uma figura cujo legado ainda hoje perdura. O técnico argentino (a quem José Mourinho foi comparado durante a sua passagem por Milão) revolucionou o futebol italiano — da preparação física à táctica, passando pela alimentação dos atletas ou pelas relações com o presidente — e transformou o Inter num clube ganhador. “O telegrama chegou daí a uma horita, se tanto”, recorda Jorge Humberto, em conversa com a Pública. A admiração foi geral na “república” (casa de estudantes) onde vivia, no número 23 da Rua do Norte, por trás da Sé Velha de Coimbra. “Nós comíamos à mesma mesa quando ele recebeu o telegrama do Herrera a propor a ida para Milão”, lembra Armando Rocheteau Gomes, companheiro do avançado da Académica: “Afinal, era verdade. Nem queríamos acreditar.” Entre 1957 e 1958, Helenio Herrera treinara o Belenenses. Na mesma altura, Jorge Humberto fazia os primeiros jogos pela equipa de Coimbra. Mas nada fazia prever o convite para se juntar ao técnico argentino em Milão. “Isto não pode ser, como é possível?”, lembra-se de ter pensado. Jogavam então pelos nerazzurri nomes como Luis Suárez, Mario Corso, Sandro Mazzola, Giacinto Facchetti ou Lorenzo Buffon (pai de Gianluigi Buffon e guarda-redes tal como este). “Quem sou eu ao pé dessa gente toda?” “Nunca me tinha passado pela cabeça algum dia ir jogar num clube estrangeiro”, confessa Jorge Humberto. Mais ainda quando estava tão perto de passar para o último ano do curso de Medicina, a sua verdadeira prioridade. Mas o convite do Inter não deixava de ser tentador... A condição era que o avançado português fizesse uma prova em Milão, num jogo particular, antes de ser tomada uma decisão. “Se tudo correr bem, provavelmente vai haver uma reviravolta na minha vida”, pensou. Antes, teve de se encher de coragem para abordar o professor Fernando de Oliveira e pedir-lhe autorização para adiar o exame de Patologia Cirúrgica. “Atrevi-me a ir bater à porta dele antes de ir para Itália”, explica Jorge Humberto, algo quase impensável numa altura em que professores estudantes eram separados por uma enorme distância. “Vá e tenha boa sorte. Mas esteja cá antes do fim do mês”, disselhe o professor, “com cara séria”.




AMIZADE COM SUÁREZ


É já de Milão que, a 18 de Junho de 1961, Jorge Humberto envia a Armando Rocheteau Gomes um postal com uma vista da Piazza della Repubblica. “Já cá estou desde ontem. Viagem rápida e confortável, jornalistas e fotógrafos à chegada, instalação no Palace Hotel e descanso neste momento para o jogo à noite. Esta manhã recebi a visita do Suárez, que se mostrou muito simpático. Informei-o das minhas características, falou-me dos restantes colegas e ficámos amigos. Já ontem à noite eu, ele e o Herrera estivemos a conversar no restaurante do hotel. Diz à malta que o jogo é contra o Spartak, à noite, e que lhes mando muitos cumprimentos.” O teste dificilmente poderia correr melhor. O Inter conseguiu uma goleada e Jorge Humberto brilhou. “Meti dois ou três golos, já não sei.”


Três dias depois havia novo encontro, diante do Santos de Pelé. Mas o avançado português futebol teve de abdicar do sonho de defrontar aquele que é por muitos considerado como o melhor jogador de sempre. Tudo por causa do compromisso, assumido com o professor Fernando de Oliveira, de estar em Coimbra para fazer o exame. “Disse cá para mim: ‘Não, não. Eu, à cautela, não vou querer tudo na vida. Se isto der resultado, há-de dar. Mas vou-me embora, porque não quero estragar o que já está feito. A exibição que eu fiz foi mais do que convincente’”, recorda Jorge Humberto. Os responsáveis do Inter foram sensíveis ao argumentos do avançado português e, na véspera do regresso, chamaram- no à sede para lhe entregarem o prémio do jogo. “Deram-me 120 mil liras, que na altura eram seis contos. Seis contos era quatro vezes aquilo que eu recebia na Académica”, diz. “Claro, reuni-me com a minha malta toda, lá em Coimbra, e fizemos uma festarola.”


Seis anos depois de ter chegado a Coimbra, Jorge Humberto estava de partida. A sua carreira na Académica começara alguns anos antes. Ainda estudante do liceu, o jovem avançado “já jogava à bola” na Académica do Mindelo, em Cabo Verde, de onde é natural. “Tinha um treinador que era, ao mesmo tempo, o professor de ginástica do liceu, e que me entusiasmou imenso para vir para Portugal. Disse-me que tinha condições para poder vingar na Académica e ao mesmo tempo tirar um curso”, conta. “Comecei, juntamente com outros dois colegas, a alimentar seriamente a possibilidade de vir estudar para Portugal. Começámos a explorar hipóteses de subsistência, porque nem a minha família nem a deles estavam em condições de nos aguentar em Portugal a tirar um curso”, continua Jorge Humberto. Bolsa para seis meses O que fazer? “Resolvemos” — imagine-se — “abordar o governador da província”, explica. “Ele ia lá à ilha de São Vicente de vez em quando, e todas as vezes que ele ia lá nós fazíamos- lhe uma visita. Queria ajudar-nos, mas não havia verba.” Até que surgiu uma possibilidade: uma bolsa apenas, a dividir pelos três, e por um período de seis meses. “Abraçámos este projecto e avançámos”, sublinha. Estava-se em 1955. Terminados os seis meses da bolsa, cada um teve de se desenvencilhar como pôde. Jorge Humberto contou com a ajuda de uma irmã, que era professora primária, e um subsídio da Académica. “Eu já tinha começado a jogar nos juniores, logo quando cheguei. Acabaram os seis meses e fui ter com os directores da Académica. Contei-lhes a minha história. Aquilo foi uma risada que sei lá, não queriam acreditar”, recorda Jorge Humberto: “Fui o primeiro júnior a ser subsidiado. Nunca tinham feito isso. Eles compreenderam a situação e apostaram em mim.”
Livre das preocupações monetárias, Jorge Humberto pôde concentrar-se no futebol. “A minha estreia foi contra o grande rival da Académica, o União de Coimbra. Ganhámos 3-0 e eu meti os três golos.
Fiquei logo lançado nos juniores e no ano seguinte estava destinado a ser promovido ao primeiro team”, diz.
Em Maio de 1956, Cândido de Oliveira, treinador da Académica, decidiu dar uma oportunidade a Jorge Humberto numa partida contra o Olhanense. “As coisas não me correram mal, mas já quase no fi m, numa daquelas bolas compridas que o guarda-redes sai e vou a correr a ver se ainda consigo lá chegar, estico o pé e o safado agarrou-mo, torceu-me o joelho e fiquei arrumado. Fiz uma luxação completa do joelho esquerdo, julguei que tinha acabado para o futebol.” Seguiram-se alguns meses de recuperação, com o fim do ano lectivo e as férias pelo meio. No início da nova temporada, Cândido de Oliveira teve uma conversa com o avançado: “Jorge, eu gostava de te pôr já no primeiro team, mas como tu ainda tens idade vais jogar outra vez nos juniores. Vais arranjar um bocadinho mais de calo, recuperar esse joelho como deve ser, e para o ano, zás!” “Dito e feito”, afirma Jorge Humberto. “No ano seguinte comecei então a jogar no primeiro team.” Paralelamente, ia construindo o seu percurso académico. “Quando fui para Portugal, estive muito indeciso sobre que curso escolher”, confessa.
Após uma inclinação inicial pela Engenharia, acabou por se decidir pela Medicina. “Depois, nasceu-me a paixão pela obstetrícia.
O Mário Torres, que jogava comigo na Académica, era já obstetra. E quando ele estava de serviço, eu — que ainda era aluno de Medicina — ia lá ver o dia-a-dia dele. Fiz até uma data de partos sendo, apenas aluno de Medicina”, explica Jorge Humberto, que no entanto acabaria por fazer a especialidade em Pediatria.


“Ecco Humberto”


Mas o curso teve de ser interrompido e, em Setembro de 1961, rumou a Itália para integrar o plantel do Inter de Milão. “Era um avançado explosivo. Tinha uma velocidade espantosa, um determinação terrível e um remate fulminante. Era um futebolista de alto nível”, resume Mário Wilson, companheiro de Jorge Humberto na Académica. “Ecco Humberto – Parla quattro lingue e tira con i due piedi” (Eis Humberto – Fala quatro línguas e chuta com os dois pés), escreveu um jornal italiano na altura. O avançado e estudante de Medicina acabava de protagonizar a primeira transferência do futebol português para o calcio. Um negócio que rendeu uma quantia importante à equipa de Coimbra: “A Académica pediu 4000 contos [cerca de 20 mil euros, ao câmbio actual], dos quais 3000 para ele e mil para a Académica”, recorda Armando Rocheteau Gomes, que viria a pertencer à direcção da secção de futebol da associação. Porém, Jorge Humberto não foi o primeiro português a jogar em Itália. Segundo vários registos, o pioneiro terá sido Francisco dos Santos, que chegou a Roma em 1906 com uma bolsa de estudo para frequentar a Academia de Belas-Artes. Aquele que, mais tarde, viria a ser o autor do busto da República ou da estátua do Marquês de Pombal em Lisboa, jogou na Lazio durante dois anos, para fazer face às dificuldades fi nanceiras, chegando a ser capitão da equipa. As características de Jorge Humberto não chegaram para que o avançado português se afirmasse na primeira equipa do Inter. Uma regra da Liga italiana não permitia que as equipas colocassem ao mesmo tempo em campo mais do que dois jogadores estrangeiros. E nos nerazzurri essas vagas estavam ocupadas pelo espanhol Luis Suárez e pelo britânico Gerry Hitchens. O clube ainda faria uma tentativa, frustrada, de naturalização de Jorge Humberto, com o objectivo de contornar essa regra. Um assunto que marcou o ex-avançado, que descreve o esquema como uma “fraude”. Nas competições europeias era diferente, uma vez que a Taça das Cidades com Feiras (precursora da Taça UEFA, hoje Liga Europa) permitia que jogassem três estrangeiros. Foi nesta prova que Humberto viveu os melhores momentos com a camisola do Inter de Milão: cinco golos em cinco partidas disputadas — incluindo um hat-trick diante do Colónia, nos 16 avos-de-final –, a que se juntaram dois jogos no campeonato italiano e outro (com um golo) na Taça.


Apesar disso, as recordações são boas: “Vivia num apartamento, um sexto andar na Via Canonica, 59, que partilhava com o [Bruno] Bolchi e o guarda-redes Ottavio Bugatti, que tinha vindo do Nápoles e era o número dois do Buffon.” De Helenio Herrera, Jorg Humberto lembra os discursos antes dos jogos. “Ele falava com um entusiasmo tal que um indivíduo ficava embevecido a ouvir. Dizia-nos: ‘Tu és capaz! Não vires a cara.’ E a gente convencia-se de que era capaz”, lembra.




OURO ANTES DOS JOGOS


No Inter, antes de cada jogo, havia um cerimonial. “O presidente Angelo Moratti [pai de Massimo Moratti, actual líder do clube] ia ao balneário visitar a equipa uns dez minutos antes. Desejava-nos boa sorte, dizia umas palavrinhas e distribuía a cada um uma libra de ouro pelo jogo ganho na semana anterior. Se não tivéssemos ganho, não havia libras, mas como se ganhava quase sempre...” Porém, devido à escassa utilização, o avançado português deixa o Inter de Milão no fim da primeira temporada. “Depois de estar lá um ano fui para Vicenza, onde joguei no Lanerossi [nome da empresa têxtil que detinha o clube]”, conta Jorge Humberto, que mesmo em Itália fez algumas cadeiras do curso, nas universidades de Milão e Pádua.


Após dois anos em Vicenza, a aventura italiana chegou ao fim. “Já tinha dito aos dirigentes que não ia continuar, porque queria voltar a Portugal para acabar o meu curso”, conta Jorge Humberto. Ainda se falou na hipótese de ser vendido aos belgas do Standard de Liège, mas a vontade do avançado acabou por prevalecer. “E lá me vim embora. Regressei de carro, um Peugeot 404 comprado havia um mês e tal, novinho em folha. Carregado com todas as minhas coisas”, acrescenta. Em 1964, no regresso de Jorge Humberto, a Académica ganha ao FC Porto no antigo Estádio das Antas. Ao lado do agora experiente avançado brilhava uma jovem esperança acabada de chegar a Coimbra: Manuel António. “Um Bom amigo, um bom aluno, um bom médico”, resume o actual director do Instituto Português de Oncologia de Coimbra.


“Na brincadeira chamávamos-lhe Giorgio Humbertino”, recorda Manuel António. Sobre a aventura italiana de Humberto, admite que “não triunfou como esperaria”. “Julgo que ele não se adaptou bem lá ao futebol. E por isso é que ele regressa, senão continuaria lá”, acrescenta Manuel António, concluindo com um sorriso: “Mas acho que foi melhor para ele regressar e tirar o curso.”




DE ANGOLA PARA MACAU


Jorge Humberto fez mais duas épocas na Académica e colocou um ponto final na carreira de futebolista em 1966, no mesmo ano em que concluiu os estudos. Passados três anos, foi chamado para a tropa. Embarcou no paquete Uíje e foi cumprir o serviço militar em Angola como alferes miliciano médico. “Estive lá dois anos”, recorda. Entre as histórias que o antigo avançado recorda de Angola, há uma particular que remete directamente para a sua experiência de futebolista. Quando a companhia que Jorge Humberto integrava foi colocada no Leste do país, em Lucusse — perto da fronteira —, a frequência dos ataques diminuiu drasticamente, quando antes era um sítio“permanentemente atacado”. “Porquê? Porque, dizem, estava do outro lado, na Zâmbia, a companhia ou o batalhão do Chipenda. Daniel Chipenda, que tinha sido meu colega no futebol da Académica”, explica. O tempo que passou em Angola serviu também para ganhar prática médica. “Fiz aquilo que era possível ser feito”, admite Jorge Humberto, descrevendo vários casos de ferimentos graves ou partos que teve de ajudar a realizar. Quando regressa a Coimbra, em 1971, dedica-se à especialidade. Acaba por escolher Pediatria: “Aquela que eu sempre quis.” Termina-a em 1975. “Depois tive a sorte de, terminada a especialidade, passados dois anos, abrir o Hospital Pediátrico [de Coimbra].” Jorge Humberto fala da Pediatria com entusiasmo e orgulho no trabalho feito. Desde a equipa que integrou no Pediátrico de Coimbra — um grupo que “dava cartas” e estava “avançado” na área — ao trabalho desenvolvido depois em Macau, para onde vai em 1982. Aí, teve como desafio erguer praticamente “do princípio” uma rede de cuidados pediátricos. O que era para ser uma estadia de curta duração transformou-se em mais de duas décadas de residência no território. Recentemente, o ex-avançado da Académica decidiu regressar a Macau para um novo desafio profissional.


Meio século depois de ter protagonizado a primeira transferência de um futebolista português para Itália, o sentimento que Jorge Humberto guarda da sua aventura no calcio é largamente positivo. “Uma rica experiência, que jamais esquecerei”, escreveu no testemunho para a obra Académica — História do Futebol.
Mais tarde, outros seguiram-lhe os passos. Mas coube-lhe a ele o pioneirismo de desbravar o caminho e dar a conhecer ao futebol italiano a qualidade dos jogadores portugueses.




NOTA: Jorge Humberto é um vencedor! Sorte? - Alguma...mas trabalho, muito trabalho, sacrifício e luta! Os outros dois amigos que repartiram a bolsa com Jorge Humberto são António St. Aubyn e Salazar Ferro, ambos Professores Doutores em Matemática! São três grandes nomes de que nos orgulhamos. Os três são naturais de Cabo Verde.
Armando Rocheteau Gomes, citado várias vezes no texto é licenciado em Matemática, também natural de Cabo Verde e é meu cunhado, casado com a minha irmã, Madalena Gomes.


Marinela St. Aubyn