Aind não tinha quatro anos de idade e já cantava o Fado, acompanhada à guitarra pelo meu pai (E que bem que ele tocava!). Mais tarde vim a perceber que o meu pai, em Coimbra, enquanto estudante, tocou algumas vezes com Artur Paredes juntamente com o meu Tio António. Qualquer um deles tocava guitarra, viola, piano,...e o meu Tio ainda tocava violino bastante bem. Voltando atrás, o meu pai ficava todo enlevado quando eu, tão pequenina, conseguia cantar no tom, imitando os trinados dos fadistas. Por acaso ainda me lembro do “Ó meu amor, minha linda feiticeira, eu daria a vida inteira,......”. E ouvia os comentários: “Esta menina vai ser fadista, um dia”.
Entretanto , eu tinha uma cadela, a “Flecha”. Quando acordava, corria descalça para o quintal para lhe fazer festas. Isto em Gouveia, quando às vezes o chão estava coberto de neve. Está claro que a Marinela, volta e meia, estava de cama com uma amigdalite. E tantas tive, que o nosso médico entendeu que deveria ser operada quanto antes.
E lá fui eu à Guarda com os meus pais, na nossa velha “arrastadeira”, um Citroen azul escuro. Subimos uma escadaria e entrámos num edifício bem grande. Lá dentro, um senhor de bata branca, presumo que seria médico, deu-me uma picadela num dedo e verteu o sangue numa lâmina de vidro. Depois os meus pais falaram um pouco com ele e saímos pela mesma escadaria. Enquanto descia, perguntei: Papá, o que me fizeram aqui no dedo foi a tal operação? O Papá olhou para a Mamã, sorriram ambos e disseram: Não, a operação vai ser mais tarde, daqui a uns dias, em Gouveia. E lá voltámos para Seia, na nossa “arrastadeira”, para casa dos meus avós, aonde entretanto tínhamos passado a viver.
Passado algum tempo, os meus pais levaram-me a Gouveia, pararam em frente duma casa grande que tinha uma espécie de ponte para se entrar e então disse-me o meu pai: Vês aquela porta que está aberta? Entra por aí e vai levar esta carta a um senhor de bata branca que está lá à espera. Diz que foi o Papá que lha mandou. E eu nem fiz qualquer pergunta. Aí vou eu fazer o recado, muito emproada por ter sido incumbida duma missão importante. Lá dentro, um senhor aceitou a carta e o recado, pegou-me ao colo, abriu uma porta e sentou-se numa cadeira, sempre comigo ao colo. Fiquei um pouco intrigada e reclamei: Só vim entregar a carta do meu Papá.
Reparei então que a sala em que estava era bem grande e tinha várias pessoas lá dentro. Todos de bata branca, excepto uma senhora de vestido escuro até quase aos pés, lenço preto na cabeça e uma faixa branca sob o lenço a cobrir-lhe parte da testa, que se dirigiu para nós com uma terrina grande de metal. Aí comecei a barafustar: Eu não quero sopa, não gosto de sopa! Papá, Mamã! Quero ir-me embora, já vos dei a carta, os meus pais estão à minha espera lá fora! Então comecei a dar pontapés ao senhor que me segurava ao colo. Rapidamente me prenderam as pernas e os braços e eu continuava a reclamar e a gritar. Aproveitando o facto de estar de boca aberta a gritar, enfiaram-me um objecto frio de metal na boca que, automaticamente se abriu e me impediu de fechar a boca, que passou só a conseguir soltar vogais: ...a...á, a...ã, ai, ai...! Então abriram a terrina da sopa e...não tinha sopa nenhuma. Afinal só tinha objectos em metal. Estava aterrada. Por que é que estavam assim a castigar-me. Por que é que o meu pai não me ouvia gritar e não me vinha acudir?
Bom, o que se seguiu já se percebeu. Fui ali operada às amígdalas e aos adenóides a sangue frio. Berrei até ficar sem forças. Nem me lembro como é que tudo acabou.
Quando melhorei, já com a garganta cicatrizada, a alegria da casa retomada, apesar de estar sentida por ter sido enganada (afinal o envelope estava vazio; o meu Papá tinha tudo combinado com o médico) , numa tarde, o meu pai pegou da guitarra e disse-me: Canta lá aquele fado “Ó meu amor, minha linda feiticeira,......”. E eu comecei a cantar. Mas a voz não me obedecia, não conseguia chegar às notas mais agudas. E os trinados, então, nem pensar.
Foi um desgosto colectivo. A menina do seu Papá tinha perdido a voz.
Claro que continuei a cantar, mas com a voz mais fraca e já não podia vir a ser fadista.
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
CHICO BUARQUE_ Olhos nos Olhos
O Chico Buarque é um dos artistas mais completos que conheço. Adoro a simplicidade e a candura com que ele comunica. A sua voz é uma brisa fresca, a sua poesia uma carícia, a sua música uma ternura. Tanta verdade, tanta cultura, tanta filosofia, tanta empatia com o ser humano, com o sofrimento, a alegria, o amor. Quão difícil é ser-se simples! E ele é-o naturalmente.
Olhos Nos Olhos
Chico Buarque
Composição: Chico Buarque
Quando você me deixou, meu bem
Me disse pra ser feliz e passar bem
Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci
Mas depois, como era de costume, obedeci
Quando você me quiser rever
Já vai me encontrar refeita, pode crer
Olhos nos olhos
Quero ver o que você faz
Ao sentir que sem você eu passo bem demais
E que venho até remoçando
Me pego cantando, sem mais, nem por quê
Tantas águas rolaram
Quantos homens me amaram
Bem mais e melhor que você
Quando talvez precisar de mim
Cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim
Olhos nos olhos
Quero ver o que você diz
Quero ver como suporta me ver tão feliz
Olhos Nos Olhos
Chico Buarque
Composição: Chico Buarque
Quando você me deixou, meu bem
Me disse pra ser feliz e passar bem
Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci
Mas depois, como era de costume, obedeci
Quando você me quiser rever
Já vai me encontrar refeita, pode crer
Olhos nos olhos
Quero ver o que você faz
Ao sentir que sem você eu passo bem demais
E que venho até remoçando
Me pego cantando, sem mais, nem por quê
Tantas águas rolaram
Quantos homens me amaram
Bem mais e melhor que você
Quando talvez precisar de mim
Cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim
Olhos nos olhos
Quero ver o que você diz
Quero ver como suporta me ver tão feliz
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Zeca Afonso, ao vivo, no Coliseu de Lisboa
Do Choupal até à Lapa
Do Choupal até à Lapa
foi Coimbra os meus amores
A sombra da minha capa
deu no chão abriu em flores
Oh, Coimbra do Mondego
e dos amores que eu lá tive
Quem te não viu anda cego
Quem te não ama não vive
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