segunda-feira, 10 de dezembro de 2012
"Nha Primeiro Lar"_Paulino Vieira
Nha Primeiro Lar
Música dedicada a Praia Branca, na ilha de S. Nicolau, em Cabo Verde
As fotos são da net e todas da ilha de S. Nicolau.
Autor da música e letra: Paulino Vieira. A interpretação quer do cantor (o autor) quer dos músicos é lindíssima.
Entre as várias composições de Paulino Vieira, destaca-se a morna " 'M Cria Ser Poeta".
______________________________________________________________
"A 31 de Agosto de 1956 nascia na Aldeia da Praia Branca, em São Nicolau, um homem dotado de genialidade. Um pouco louco, um visionário, um futurista, vindo de tempos que ainda não vivemos onde a imagem externa pouco ou nada interessa para a definição do ser. O homem que um dia quis ser poeta e conseguiu ser muito mais do que isso...
Paulino Vieira surpreendeu tudo e todos quando se percebeu que aos nove anos de idade estava à vontade no cavaquinho e no violão, um aprendizado adquirido apenas ao observar os alunos da pequena escola de música que o pai mantinha em casa. De São Nicolau seguiu então para São Vicente para frequentar a Escola Salesiana onde recebeu o apelido de 'menino-prodígio'.
Mais do que um músico, um pensador, um estudioso, um pesquisador, um mestre e um maestro. Assim é Paulino Vieira, de imagem pouco convencional. Esperar dele normalidade é muito mais do que uma utopia. Paulino não é igual a ninguém.
Inseparável da sua harmónica, exímio pianista mas também excelente tocador de violão e de clarinete. É, na realidade, difícil atribuir a Paulino Vieira um instrumento onde se destaque. "Ele pode pegar em qualquer instrumento e fazer delirar o público", diz Voginha, também músico e admirador confesso da mestria de Paulino Vieira.
O músico Báu recorda o ano de 1995. "Nesse ano ele ia sempre à 'Casinha dos Licores' ver-me tocar. Daí decidiu levar-me para uma digressão com a Cesária Évora durante três meses. Para mim ele é um grande mestre, de todos os tempos", reverencia Báu."
(Susana Rendall Rocha)
sexta-feira, 7 de dezembro de 2012
Fausto - Voando por Cima das Águas - Ao Vivo no CCB
Ó é tão lindo!!!
sábado, 24 de novembro de 2012
Augusto Camacho Vieira - Sé Velha
AUGUSTO CAMACHO VIEIRA é hoje homenageado no Casino Estoril durante uma cerimónia que tem início às 19 horas e continua com o Jantar promovido pela AAECL, comemorativo da “Tomada da Bastilha”. Segue-se um baile ao som da Orquestra “Clube Vintage", a homenagem e intervenções várias, terminando com uma serenata pelo “Grupo Jurídico de Canto e Guitarra de Coimbra” e o FRA de despedida.
sexta-feira, 23 de novembro de 2012
Linda Menina_Luiz Goes
Luiz Goes canta-nos "Linda Menina". O poema é de Carlos Carranca e a música de João Moura.
domingo, 11 de novembro de 2012
Isto é Matemática - O efeito borboleta
Recordo um pequeno detalhe que foi aqui publicado a propósito deste fenómeno e da canção dos "Muse", Butterflies and Hurricanes:
http://ruadobocage.blogspot.pt/2010/04/muse-butterflies-hurricanes-piano-cover.html
sábado, 10 de novembro de 2012
Carlos Carranca apresenta livro sobre Torga e Unamuno
Carlos Carranca apresenta livro sobre Torga e Unamuno
O poeta Carlos Carranca dedica ao cantor Luiz Goes, falecido em setembro, um livro sobre Miguel Torga e Miguel de Unamuno, a lançar em 7 de novembro, em Cascais. Com o título “O Casticismo em Unamuno e Torga”, o estudo “centra-se na obra literária de dois dos mais significativos escritores ibéricos”, disse o autor.
O trabalho de Carlos Carranca assenta, em especial, “no entendimento da ideia de casticismo” em Unamuno e na “consequente influência deste no poeta transmontano”, bem como na originalidade da obra de Torga, “alheia a qualquer influência do escritor basco”.
Autor da biografia de Luiz Goes, Carranca dedica o livro à memória deste intérprete da música de Coimbra – de quem era amigo -, do seu pai, Carlos de Oliveira e Sousa, do pintor Isolino Vaz e do médico Fernando Vale, um dos fundadores do PS, contemplando ainda os seus netos Leonor e Afonso.
Carranca, poeta, declamador e também intérprete do fado de Coimbra, participava em espetáculos com Luiz Goes e este, por sua vez, passava temporadas em casa do amigo na serra da Lousã. A obra, com prefácio de Eugénio Lisboa, é o resultado da tese de doutoramento em Línguas e Literaturas Modernas (especialidade em Língua, Cultura e Literatura Portuguesas), que Carlos Carranca defendeu em 2010, na Universidade Autónoma de Lisboa.
“Porque é sempre difícil, senão mesmo impossível, definir um povo, uma nação, seguimos os passos destes dois caminheiros, peregrinos das respetivas pátrias (Espanha e Portugal), em busca da eternidade de ambas”, referiu. Dessa peregrinação, sublinhou, “ficou a ideia de uma originalidade tecida no cruzamento de diversas influências culturais geradoras da tradição a que Unamuno chamou eterna”.
Unamuno e Torga “refletiram com tenacidade heroica sobre os problemas das suas pátrias e, sobretudo, sobre o que nelas muitos não tinham a coragem de discutir publicamente”. Para Carlos Carranca, os dois autores ibéricos “foram visionários, profetas dos respetivos países, ao mesmo tempo que denunciavam as misérias e as falsas riquezas dos seus tempos”.
O livro, editado pela MinervaCoimbra, terá uma primeira apresentação no dia 7, no Centro Cultural de Cascais, às 18H30, a cargo de Eugénio Lisboa, José d’Encarnação e Emídio Guerreiro. Em Coimbra, será apresentado por António Arnaut e Eugénio Lisboa no dia 9, às 18H30, na Livraria Minerva. No dia 16, realiza-se nova apresentação da obra em Góis, com intervenções de Carvalho Homem e António Campos.
Carlos Carranca é professor da Escola Superior de Educação Almeida Garrett e da Escola Profissional de Teatro de Cascais. Além da sua obra poética, com destaque para “7 poemas para Carlos Paredes” (1994), “Coimbra à Guitarra” (2003) e “Fratria” (2008), é autor de vários ensaios sobre Teixeira de Pascoaes e Miguel Torga.
sábado, 3 de novembro de 2012
" Ensaio nº 1" de Octávio Sérgio_Interpretação de Miguel Raposo e Philippe Raposo
" Ensaio nº 1" de Octávio Sérgio. Execução por Miguel Raposo (g) e Philippe Raposo (v), nos Encontros de Guitarra Portuguesa deste ano, em Coimbra.
(Publicado no blogue Guitarras de Coimbra IV)
Miguel e Philippe Raposo, dois irmãos portugueses, estudantes e residentes em Bruxelas, revisitam o repertório da música de Coimbra. Para além da tradição, este duo descobre esta música, através de composições personalizadas e peças originais. Interpreta as obras de Gonçalo, Artur e Carlos Paredes, Octávio Sérgio, António Pinho Brojo e Francusco Martins, entre outros...
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
CONSOANTE MUDA _ Burriculum vitæ (Rui Tavares no "Público", 29/10/2012))
sexta-feira, 26 de outubro de 2012
St. Aubyn's houses em S. Nicolau
Nestas fotos, a primeira casa que se vê à esquerda da Igreja (casa e quintal) era a residência da família de João Francisco St. Aubyn, meu sogro. Aí nasceram todos os seus filhos.
Nesta 2ª foto, consegue ver-se ao longe (1ª casa à esquerda no monte Lombinho) a velha casa de Edmund Charles St. Aubyn
Uma vista melhor e mais completa do Largo da Igreja de Nª Sª do Rosário (uma das igrejas mais antigas de Cabo Verde). Ao centro, de costas, está o busto do Dr. Júlio José Dias, um trisavô materno de Francisco St. Aubyn, um médico benemérito que doou a sua casa para aí passar a funcionar o primeiro seminário-liceu de Cabo Verde.
Um pequeno apontamento do interior da casa de
João Francisco St. Aubyn
A velha casa de Edmund Charles St. Aubyn em S. Nicolau
Da velha casa que Edmund Charles St. Aubyn (avô paterno de Francisco St. Aubyn) mandou construir por um arquitecto inglês, em S. Nicolau (Cabo Verde), pouco resta, já que foi vendida, revendida, ampliada com obras que a descaracterizaram...enfim, coisas do tempo! Ainda temos uma ou outra foto antiga que, por milagre, veio parar às nossas mãos, mas as melhores imagens deverão estar algures talvez com algum familiar num país qualquer...
Encontrei este post num blogue dos "Nazarenos" que se referia a essa casa, com uma foto sua pouco feliz evidenciando as adaptações "assassinas"...mas não deixa de ser agradável ter esta recordação:
Lombinho passou à história
"A residência pastoral “Lombinho” em Ribeira Brava, São Nicolau, deixou de ser propriedade da igreja do Nazareno. Devido ao seu avançado estado de degradação, optou-se pela permuta com a Câmara Municipal de Ribeira Brava, tendo a igreja recebido em troca, um apartamento em São João, na Vila. Lombinho tem história. Aquele castelo construído no século passado pelos ingleses, passou a ser propriedade da igreja do nazareno em 1957. O saudoso Sr. Luciano de Barros foi quem fez o negócio.
Tudo certo. A igreja não tinha possibilidades de o recuperar. Parece que havia outra saída a não ser, vende-lo ou trocá-lo. Optou-se pela troca directa.
Temos um receio pessoal. Agora o Lombinho é da Câmara Municipal e parece que vai ser recuperado para servir de centro cultural de Ribeira Brava. Sendo assim, poderá haver bailes e festanças no espaço. Mas já imaginaram bailes e festas no “Tabernáculo”, local que foi santuário, altar de oração, de cânticos sagrados e de culto. Já imaginaram o racionalismo cristão a usar o nosso “ex-Tabernáculo” para uma sessão espírita?
Agora, o remédio é esquecer “Lombinho”. Mas fica a grata lembrança de “Lombinho” ter sido nosso."
Encontrei este post num blogue dos "Nazarenos" que se referia a essa casa, com uma foto sua pouco feliz evidenciando as adaptações "assassinas"...mas não deixa de ser agradável ter esta recordação:
Lombinho passou à história
"A residência pastoral “Lombinho” em Ribeira Brava, São Nicolau, deixou de ser propriedade da igreja do Nazareno. Devido ao seu avançado estado de degradação, optou-se pela permuta com a Câmara Municipal de Ribeira Brava, tendo a igreja recebido em troca, um apartamento em São João, na Vila. Lombinho tem história. Aquele castelo construído no século passado pelos ingleses, passou a ser propriedade da igreja do nazareno em 1957. O saudoso Sr. Luciano de Barros foi quem fez o negócio.
Tudo certo. A igreja não tinha possibilidades de o recuperar. Parece que havia outra saída a não ser, vende-lo ou trocá-lo. Optou-se pela troca directa.
Temos um receio pessoal. Agora o Lombinho é da Câmara Municipal e parece que vai ser recuperado para servir de centro cultural de Ribeira Brava. Sendo assim, poderá haver bailes e festanças no espaço. Mas já imaginaram bailes e festas no “Tabernáculo”, local que foi santuário, altar de oração, de cânticos sagrados e de culto. Já imaginaram o racionalismo cristão a usar o nosso “ex-Tabernáculo” para uma sessão espírita?
Agora, o remédio é esquecer “Lombinho”. Mas fica a grata lembrança de “Lombinho” ter sido nosso."
terça-feira, 16 de outubro de 2012
Até sempre Companheiro
Era um dia de Outubro de 1981. Estávamos nos Olhos de Água (Algarve) em boa confraternização com amigos, na casa dum deles, situada numa pequena falésia sobre o mar. Era um dia morno e calmo. Tocava-se, cantava-se. Entre os amigos, estava o Adriano Correia de Oliveira. Recordávamos os nossos tempos de juventude em Coimbra. O dia chegava ao fim, inevitavelmente. Não nos apetecia acabar ali o convívio. Foi então que nos lembrámos que podíamos continuar a nossa festa na nossa casa, uma vivenda a 3Km de Faro. Ficou marcado para daí a uma semana, a 16 de Outubro. Nesse dia fazia 43 anos o Chico. Que melhor data poderíamos encontrar para a nossa próxima tertúlia?
Mas a tertúlia não aconteceu. Uns dias antes, o Adriano, sempre amigo e prestável, foi ajudar uns pescadores a tirar um barco do mar e sofreu um acidente. Teve de ser hospitalizado. Não foi muito grave, sofreu danos numa perna. Contudo, teve de regressar a Lisboa. Ficou combinado que o próximo 16 de Outubro não escaparia. Para já, juntar-nos-íamos a 16 de Outubro de 1982. Ele gostava do Algarve nessa época do ano.
Mas também não pôde vir.
Estávamos a festejar o 44º aniversário do Chico. A televisão estava ligada, apesar de ninguém lhe prestar atenção. Foi então que escutámos a terrível notícia. O Adriano nunca mais viria.
Marinela St. Aubyn
Mas a tertúlia não aconteceu. Uns dias antes, o Adriano, sempre amigo e prestável, foi ajudar uns pescadores a tirar um barco do mar e sofreu um acidente. Teve de ser hospitalizado. Não foi muito grave, sofreu danos numa perna. Contudo, teve de regressar a Lisboa. Ficou combinado que o próximo 16 de Outubro não escaparia. Para já, juntar-nos-íamos a 16 de Outubro de 1982. Ele gostava do Algarve nessa época do ano.
Mas também não pôde vir.
Estávamos a festejar o 44º aniversário do Chico. A televisão estava ligada, apesar de ninguém lhe prestar atenção. Foi então que escutámos a terrível notícia. O Adriano nunca mais viria.
Marinela St. Aubyn
segunda-feira, 1 de outubro de 2012
ELEGIA, com José Afonso e Rui Pato
Hoje, Dia Mundial da Música, Zeca Afonso e Rui Pato actuam no Carpe Diem.
"Elegia", com letra de Luís Andrade e música de Zeca Afonso
sábado, 29 de setembro de 2012
Publicado por Carlos Carranca em "...De Coimbra, a Guitarra, o Canto e a Poesia..."
Georges Leroux*
Os antigos reflectiram muito sobre as profundas alianças entre a poesia e a música; admiraram nelas uma cumplicidade tão natural que lhes parecia brotarem ambas da mesma fonte. Todas as culturas possuem o seu instrumento e também todas querem dar a esse instrumento a palavra do poema. Ninguém sabe como é que esta história começou e pode contar-se muita coisa acerca da preponderância dos tambores e das flautas no aparecimento das primeiras músicas, no acompanhamento das primeiras narrativas. À roda de fogueiras, os contadores de histórias dão lugar ao canto e, como acontece na Ilíada, a música invade o poema. Antiga é a arte que alia a voz e o instrumento, mas nenhuma parece ter tido maior proximidade com o poema como a guitarra, quiçá devido à sua simplicidade. A cítara indiana e grega, o alaúde árabe partilham essa espécie de parentesco campestre com a rapsódia dos contadores de histórias. Vemo-los nas pinturas dos vasos, a cantar os feitos dos heróis e há sempre um instrumento por perto. Todas as cidades do Mediterrâneo conhecem a guitarra e todas lhe seguiram a caminhada, atravessando o lamento dos trovadores e o flamenco cigano. Àquele que observa esta história é imperativo dizer que a guitarra não gosta nada de estar só, porque ela, então, fecha-se, chama o poeta e gosta de se lhe confiar. Desde os primeiros alaúdes aos belos instrumentos modernos, ela solicitou sempre o canto e sempre consigo o levou. Em todas as tradições onde este canto se desenvolveu como canto de um povo, a guitarra se imiscuiu como a voz solitária daquele que traz consigo o canto. Ele é, como o diz o poema de Carlos Carranca, o próprio sentimento que faz existir este canto popular, e é ao procurar ouvi-lo nas vielas de todas as cidades da Itália, da Espanha e de Portugal que melhor podemos palpar aquilo que faz brotar tal sentimento. Este canto não teria em si mesmo nenhuma directriz particular, se não encontrasse na guitarra uma aliada tão próxima que acabou por se tornar a companheira indispensável de tudo o que exprime a alma popular. Quando, em contrapartida, a melodia surgiu, fica a saber-se que a tradição que a traz é tão antiga como o instrumento e tem a mesma voz. É por essa razão, sem dúvida, que o poema do fado está tão intimamente ligado à guitarra, porque o canto que o constitui não conheceu, e não conhece ainda, uma existência em que ela não lhe esteja associada. O lamento, o apelo, a invocação e, inclusive, até a reivindicação política – uma vez que o fado, sabemo-lo sobejamente desde José Afonso, pode ser isso também – fundiram-se no instrumento, a ponto de se tornarem indissociáveis – e é esta alma popular que Carlos Carranca retoma nos seus poemas. Não somente nas palavras e nas músicas dos grandes guitarristas que ele evoca – como Carlos Paredes, o maior de todos – mas também e profundamente na língua de todos aqueles para quem o fado é emoção da vida, expressão da existência. Quando escreve que o fado é o sentimento, ele quer, sem dúvida, dizer que o fado exprime a emoção, mas diz algo mais: o fado, nesta fusão da palavra e do instrumento, é a própria experiência desse sentimento, dessa vida exposta, posta a nu na mais estreita viela de Portugal. Exprime o fado a própria vivência num mundo que apela ao amor. Com efeito, há no âmago da experiência da música popular, um pedido, um apelo, que toda a tradição do fado manteve, tanto a de Coimbra como a de Lisboa. Nos seus poemas, Carlos Carranca exprime esse apelo, confia-o àquilo que na guitarra é reivindicação do indivíduo a quem este sentimento arrasta e faz existir. Gosto desta ideia de, conduzindo-o ao seu limite social e político, o sentimento do fado ser arte redentora e fraternal, como voz do povo que encontra a sua plena soberania neste momento da História de Portugal, trazido pelos fadistas de todos os tempos. Redentora, esta arte foi-o da maneira mais profunda, porque salvou do desespero um povo desamparado e submetido à tirania: a mais simples guitarra, o mais despojado dos poemas podiam manter no “sentimento” da vida todos aqueles que então duvidavam da sua alma e da sua capacidade de continuar. Existir no fado, como Luiz Goes nos dá o testemunho cada vez mais vivo, o mais inquietante, quer isto dizer aceitar de confiar à música esse apelo, esse pedido. Mas esse poder de salvação, é preciso notar, num país tão católico como Portugal, nunca foi buscar a religião patrimonial, nunca a incluiu no repertório dos seus símbolos: o fado desenvolveu o seu espaço poético: o de uma solidão com que cada um se pode identificar. A guitarra é a pessoa que canta, e ela canta nessa solidão melancólica que a reconduz não a uma esperança religiosa, mas a uma fraternidade sempre inscrita já no mais profundo tecido da sociedade. Ninguém pode ouvir Amália Rodrigues sem sentir esse laço fundamental com uma esperança que é a de todos. Essa a razão que me faz apreciar, na poética de Carranca, esse apelo à música, na sua força de fraternidade, nessa reclamação do laço fraternal. Os fadistas compartilham com os buzuquistas gregos esta solidariedade no apelo, mesmo se não experimentam nunca essa alegria desenvolta. Poder-se-ia compará-los politicamente, em particular o rebetiko, que é, como o fado, um canto rebelde e, por vezes, desesperado, mas isso seria para nos apercebermos de que o fado, no seu quase exclusivo recurso à guitarra, consagrou a solidão do instrumento como solidão do apelo: neste músico sozinho, sentado na sua cadeira ou no seu banco expõe-se, de facto, aquele que não somente acompanha o canto, mas com ele se identifica como músico solitário. Por comparação, o tampo do buzuque representa a sociedade, enquanto que, no fado, esse efeito de conjunto não existe: há, de preferência, o apelo à fraternidade e, na melancolia à qual se costuma associar o fado, é primeiro preciso compreender essa solidão de que a guitarra é o exemplo. Isso Carranca o diz melhor que ninguém, e quiçá de modo especial nessa relação da guitarra com o corpo da mulher amada. Como é que esta solidão pode ser, simultaneamente, uma arte poética do sentimento de existir e uma ânsia política de fraternidade, expõe-o Carlos Carranca numa poética paradoxal. «O povo é português, escreve, e a guitarra teima em tocar-lhe o coração.» É esse o elo de um coração de partilha que todas as sociedades evocam como coração fraternal: todos estão convidados a reconhecerem-se nesse instrumento solitário que os representa; todos podem encontrar aí o seu próprio apelo; mas, fazendo-o, todos sabem também que, nesse gesto, deixam a sua solidão e encontram toda a história e toda a tradição que conduziu o povo até ele. Este é o paradoxo de uma identidade melancólica, mantida na solidão do instrumento. Em todos os seus poemas, o povo surge como sujeito do fado, como sujeito do poema, como portador desse tema popular que junta e reúne no canto todos aqueles que a angústia do tempo isola. Em toda a cidade, em todas as suas praças, esse elo é esperado, esse sentimento está exposto como o próprio sentimento de uma história que se prolonga e vem do fundo dos tempos. Todas as músicas populares têm em comum essa força da origem, essa densidade do acolhimento num canto que é levado pelo tempo, mas são, sem dúvida, o fado e a sua guitarra a arte que mais profundamente lhe ilustra essa riqueza. O mistério da guitarra está aí; ela dirige-se àquele que sofre no tempo, mas ela apresenta-lhe o exemplo da salvação possível. É política a poesia de Carranca? Não hesitaria a afirmá-lo, na condição de manter tudo aquilo que nela associe o povo à história desse sentimento profundo da existência, a esse apelo que nem sempre é reivindicação de soberania. Todavia, a liberdade volta sempre, e sempre exige e reclama, e sempre a salvação evocada pelo poeta ultrapassa essa cura dos males da alma no sentido do destino do povo, da sua felicidade. Uma simples guitarra pode tudo isso e Carranca mostra que o poema pode carregar todo o registo desse sentimento, pode exprimir toda a reivindicação humana de ternura e de justiça, todo o pedido de amor e de paz. Era necessário que ele fosse o grande poeta que é para que a voz do fado surgisse com tal verdade, para que nós o ouvíssemos no cerne da emoção do seu lugar fraternal.
Tradução de José d’ Encarnação – Professor Catedrático da Universidade de Coimbra.
quarta-feira, 26 de setembro de 2012
"Serra d'Arga"_ Luiz Goes e "Coimbra Quintet"_1958
http://youtu.be/h24lRxbap8Q
Luiz Goes, SEMPRE!!!
"Serra d'Arga"_Disco gravado em Espanha a convite do Professor Mário Silva.
Coimbra Quintet, com António Portugal e Jorge Godinho na guitarra, Manuel Pepe e Levy Baptista na viola, e a voz única de Luiz Goes.
Abaixa-te ó Serra d'Arga/ Que eu quero ver São Lourenço/ Quero ver o meu amor/ Acenar-lhe com o lenço/ Menina do lenço preto/ Diga-me quem lhe morreu/ Se foi pai ou se foi mãe/ Que por ela morro eu.
(Não me é permitido publicar o player porque este vídeoclipe está proíbido em mais de cem paízes...questões de direitos de autor que as empresas discográficas alegam...)
Pode ser visto no Carpe Diem numa publicação de 16/02/2011
sábado, 22 de setembro de 2012
A LUIZ GOES
[Por Mário Martins, jornalista, meu amigo e de Coimbra. Após o adeus a Luiz Goes, 19-09-2012)]

Olha, Luiz, foi muito digno o funeral.
Santa Cruz cheia. As portas abertas de par e par.
Doutores e futricas, povo simples e autoridades, malta das canções e da bola. O Octávio, o Pato, o Moura, os Campos, o Belo e o Marques. Amigos conhecidos, gente anónima. O Edmundo.
No final, o Polybio deu-te um abraço em nome dos colegas de curso, o Carlos conseguiu declamar por entre as lágrimas aquele poema que costumavam cantar juntos.
A Academia esteve representada ao mais alto nível e foram eles que te colocaram por cima a bandeira da Associação.
Cumpriu-se também o teu outro desejo: ouviu-se o «Ó Coimbra do Mondego / E dos amores que eu lá tive...». (Olha, desculpa, disseste que não querias choraminguices, mas eu chorei como uma Maria Madalena, de pé, que o momento era sagrado).
Estava muito calor e várias dezenas de pessoas ao sol no Largo de Sansão. A malta despediu-se de ti à porta da igreja com um F-R-A. E quando o carro fúnebre começou a andar, mesmo atrás de mim, ali para o lado da Carmina, uma jovem já entradota na idade enviou-te um sonoro «Adeus, querido!». E o companheiro dela, não sei de circunstância se da vida, acrescentou de imediato «Faz boa viagem, pá!». Era a Coimbra futrica a saudar-te, coração aberto, alma ao léu.
Foste chorado por muitos daqueles que te admiravam; ou melhor, que te amavam. Porque tu eras, és, a nossa voz. O Alcoforado não tirou os óculos escuros na hora e meia dentro da igreja. E à saída muitos eram os olhos moídos pelas lágrimas. Mas olha, Luiz, acho que quem chorou mais foi o Carlos, esse, esse mesmo, o teu "irmão" das últimas duas décadas.
E pronto. Como bem sabes, partiu o meu ídolo de criança, que só conheci pessoalmente já bem adulto. Mas ficou o Amigo com quem depois tive o privilégio de conviver por aqui e por ali.
Um dia destes reencontramo-nos, Luiz, está bem?
***
Grata, Mário! Abraço amigo.
LT

Olha, Luiz, foi muito digno o funeral.
Santa Cruz cheia. As portas abertas de par e par.
Doutores e futricas, povo simples e autoridades, malta das canções e da bola. O Octávio, o Pato, o Moura, os Campos, o Belo e o Marques. Amigos conhecidos, gente anónima. O Edmundo.
No final, o Polybio deu-te um abraço em nome dos colegas de curso, o Carlos conseguiu declamar por entre as lágrimas aquele poema que costumavam cantar juntos.
A Academia esteve representada ao mais alto nível e foram eles que te colocaram por cima a bandeira da Associação.
Cumpriu-se também o teu outro desejo: ouviu-se o «Ó Coimbra do Mondego / E dos amores que eu lá tive...». (Olha, desculpa, disseste que não querias choraminguices, mas eu chorei como uma Maria Madalena, de pé, que o momento era sagrado).
Estava muito calor e várias dezenas de pessoas ao sol no Largo de Sansão. A malta despediu-se de ti à porta da igreja com um F-R-A. E quando o carro fúnebre começou a andar, mesmo atrás de mim, ali para o lado da Carmina, uma jovem já entradota na idade enviou-te um sonoro «Adeus, querido!». E o companheiro dela, não sei de circunstância se da vida, acrescentou de imediato «Faz boa viagem, pá!». Era a Coimbra futrica a saudar-te, coração aberto, alma ao léu.
Foste chorado por muitos daqueles que te admiravam; ou melhor, que te amavam. Porque tu eras, és, a nossa voz. O Alcoforado não tirou os óculos escuros na hora e meia dentro da igreja. E à saída muitos eram os olhos moídos pelas lágrimas. Mas olha, Luiz, acho que quem chorou mais foi o Carlos, esse, esse mesmo, o teu "irmão" das últimas duas décadas.
E pronto. Como bem sabes, partiu o meu ídolo de criança, que só conheci pessoalmente já bem adulto. Mas ficou o Amigo com quem depois tive o privilégio de conviver por aqui e por ali.
Um dia destes reencontramo-nos, Luiz, está bem?
***
Grata, Mário! Abraço amigo.
LT
quinta-feira, 20 de setembro de 2012
OFERTA-ESCOLA E SUBCRITÉRIOS MANHOSOS
Parece que, por mais que se legisle, tudo volta ao mesmo! Na oferta-escola pode-se contornar a situação colocando a concurso horários em que se pede um "técnico especializado" para um horário de qualquer grupo, definindo as condições mais convenientes à escola ou a quem se quer colocar. A estes horários, que podem ser do grupo de Informática, de Matemática...etc..., podem concorrer candidatos interessados, mas não serão seleccionados como no concurso nacional. Aqui não interessa ser do grupo, ser profissionalizado, ter boa classificação profissional...apenas interessa estar dentro dos critérios que a escola define. Assim é fácil dirigir a escolha para quem se quer! E como é que os sindicatos ficam indiferentes, metendo a cabeça na areia? É uma injustiça generalizada e autorizada por quem podia por cobro a tanta trafulhice!
Não cito nomes nem escolas, mas tenho necessidade de desabafar!
Para que serve a Inspecção, e a quem é que ela serve, se não ouve quem reclama e finge não receber os e-mails que lhe são enviados pelos reclamantes?
Da página do Facebook, "Eu, Professor, Denuncio".
terça-feira, 18 de setembro de 2012
Luiz Goes deixou-nos hoje
Morreu hoje, com 79 anos de idade, Luiz Goes, um dos maiores cantores da canção de Coimbra.
"Nascido em 1933, em Coimbra, Luiz Fernando de Sousa Pires de Goes licenciou-se em Medicina, tendo exercido a profissão de médico dentista em paralelo com a carreira artística.
Iniciou-se no fado por influência do tio paterno, Armando Goes, contemporâneo de Edmundo Bettencourt, António Menano, Lucas Junot, Paradela de Oliveira, Almeida d’Eça e Artur Paredes."
Recordemo-lo numa das suas canções, "Toada Beirã":
"Nascido em 1933, em Coimbra, Luiz Fernando de Sousa Pires de Goes licenciou-se em Medicina, tendo exercido a profissão de médico dentista em paralelo com a carreira artística.
Iniciou-se no fado por influência do tio paterno, Armando Goes, contemporâneo de Edmundo Bettencourt, António Menano, Lucas Junot, Paradela de Oliveira, Almeida d’Eça e Artur Paredes."
Recordemo-lo numa das suas canções, "Toada Beirã":
segunda-feira, 17 de setembro de 2012
CARTA ABERTA AO PRIMEIRO MINISTRO DE PORTUGAL
(Um texto de Eugénio Lisboa publicado no blogue"De Rerum Natura")
Exmo. Senhor Primeiro Ministro
.
Hesitei muito em dirigir-lhe estas palavras, que mais não dão do que uma pálida ideia da onda de indignação que varre o país, de norte a sul, e de leste a oeste. Além do mais, não é meu costume nem vocação escrever coisas de cariz político, mais me inclinando para o pelouro cultural. Mas há momentos em que, mesmo que não vamos nós ao encontro da política, vem ela, irresistivelmente, ao nosso encontro. E, então, não há que fugir-lhe.
Hesitei muito em dirigir-lhe estas palavras, que mais não dão do que uma pálida ideia da onda de indignação que varre o país, de norte a sul, e de leste a oeste. Além do mais, não é meu costume nem vocação escrever coisas de cariz político, mais me inclinando para o pelouro cultural. Mas há momentos em que, mesmo que não vamos nós ao encontro da política, vem ela, irresistivelmente, ao nosso encontro. E, então, não há que fugir-lhe.
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Para ser inteiramente franco, escrevo-lhe, não tanto por acreditar que vá ter em V. Exa. qualquer efeito – todo o vosso comportamento, neste primeiro ano de governo, traindo, inescrupulosamente, todas as promessas feitas em campanha eleitoral, não convida à esperança numa reviravolta! – mas, antes, para ficar de bem com a minha consciência. Tenho 82 anos e pouco me restará de vida, o que significa que, a mim, já pouco mal poderá infligir V. Exa. e o algum que me inflija será sempre de curta duração. É aquilo a que costumo chamar “as vantagens do túmulo” ou, se preferir, a coragem que dá a proximidade do túmulo. Tanto o que me dê como o que me tire será sempre de curta duração. Não será, pois, de mim que falo, mesmo quando use, na frase, o “odioso eu”, a que aludia Pascal.
Para ser inteiramente franco, escrevo-lhe, não tanto por acreditar que vá ter em V. Exa. qualquer efeito – todo o vosso comportamento, neste primeiro ano de governo, traindo, inescrupulosamente, todas as promessas feitas em campanha eleitoral, não convida à esperança numa reviravolta! – mas, antes, para ficar de bem com a minha consciência. Tenho 82 anos e pouco me restará de vida, o que significa que, a mim, já pouco mal poderá infligir V. Exa. e o algum que me inflija será sempre de curta duração. É aquilo a que costumo chamar “as vantagens do túmulo” ou, se preferir, a coragem que dá a proximidade do túmulo. Tanto o que me dê como o que me tire será sempre de curta duração. Não será, pois, de mim que falo, mesmo quando use, na frase, o “odioso eu”, a que aludia Pascal.
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Mas tenho, como disse, 82 anos e, portanto, uma alongada e bem vivida experiência da velhice – da minha e da dos meus amigos e familiares. A velhice é um pouco – ou é muito – a experiência de uma contínua e ininterrupta perda de poderes. “Desistir é a derradeira tragédia”, disse um escritor pouco conhecido. Desistir é aquilo que vão fazendo, sem cessar, os que envelhecem. Desistir, palavra horrível. Estamos no verão, no momento em que escrevo isto, e acorrem-me as palavras tremendas de um grande poeta inglês do século XX (Eliot): “Um velho, num mês de secura”... A velhice, encarquilhando-se, no meio da desolação e da secura. É para isto que servem os poetas: para encontrarem, em poucas palavras, a medalha eficaz e definitiva para uma situação, uma visão, uma emoção ou uma ideia.
Mas tenho, como disse, 82 anos e, portanto, uma alongada e bem vivida experiência da velhice – da minha e da dos meus amigos e familiares. A velhice é um pouco – ou é muito – a experiência de uma contínua e ininterrupta perda de poderes. “Desistir é a derradeira tragédia”, disse um escritor pouco conhecido. Desistir é aquilo que vão fazendo, sem cessar, os que envelhecem. Desistir, palavra horrível. Estamos no verão, no momento em que escrevo isto, e acorrem-me as palavras tremendas de um grande poeta inglês do século XX (Eliot): “Um velho, num mês de secura”... A velhice, encarquilhando-se, no meio da desolação e da secura. É para isto que servem os poetas: para encontrarem, em poucas palavras, a medalha eficaz e definitiva para uma situação, uma visão, uma emoção ou uma ideia.
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A velhice, Senhor Primeiro Ministro, é, com as dores que arrasta – as físicas, as emotivas e as morais – um período bem difícil de atravessar. Já alguém a definiu como o departamento dos doentes externos do Purgatório. E uma grande contista da Nova Zelândia, que dava pelo nome de Katherine Mansfield, com a afinada sensibilidade e sabedoria da vida, de que V. Exa. e o seu governo parecem ter défice, observou, num dos contos singulares do seu belíssimo livro intitulado “The Garden Party”: “O velho Sr. Neave achava-se demasiado velho para a primavera.” Ser velho é também isto: acharmos que a primavera já não é para nós, que não temos direito a ela, que estamos a mais, dentro dela... Já foi nossa, já, de certo modo, nos definiu. Hoje, não. Hoje, sentimos que já não interessamos, que, até, incomodamos.
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Todo o discurso político de V. Exas., os do governo, todas as vossas decisões apontam na mesma direcção: mandar-nos para o cimo da montanha, embrulhados em metade de uma velha manta, à espera de que o urso lendário (ou o frio) venha tomar conta de nós. Cortam-nos tudo, o conforto, o direito de nos sentirmos, não digo amados (seria muito), mas, de algum modo, utilizáveis: sempre temos umas pitadas de sabedoria caseira a propiciar aos mais estouvados e impulsivos da nova casta que nos assola. Mas não. Pessoas, como eu, estiveram, até depois dos 65 anos, sem gastar um tostão ao Estado, com a sua saúde ou com a falta dela. Sempre, no entanto, descontando uma fatia pesada do seu salário, para uma ADSE, que talvez nos fosse útil, num período de necessidade, que se foi desejando longínquo.
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Chegado, já sobre o tarde, o momento de alguma necessidade, tudo nos é retirado, sem uma atenção, pequena que fosse, ao contrato anteriormente firmado. É quando mais necessitamos, para lutar contra a doença, contra a dor e contra o isolamento gradativamente crescente, que nos constituímos em alvo favorito do tiroteio fiscal: subsídios (que não passavam de uma forma de disfarçar a incompetência salarial), comparticipações nos custos da saúde, actualizações salariais – tudo pela borda fora. Incluindo, também, esse papel embaraçoso que é a Constituição, particularmente odiada por estes novos fundibulários. O que é preciso é salvar os ricos, os bancos, que andaram a brincar à Dona Branca com o nosso dinheiro e as empresas de tubarões, que enriquecem sem arriscar um cabelo, em simbiose sinistra com um Estado que dá o que não é dele e paga o que diz não ter,para que eles enriqueçam mais, passando a fruir o que também não é deles, porque até é nosso.
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Todo o discurso político de V. Exas., os do governo, todas as vossas decisões apontam na mesma direcção: mandar-nos para o cimo da montanha, embrulhados em metade de uma velha manta, à espera de que o urso lendário (ou o frio) venha tomar conta de nós. Cortam-nos tudo, o conforto, o direito de nos sentirmos, não digo amados (seria muito), mas, de algum modo, utilizáveis: sempre temos umas pitadas de sabedoria caseira a propiciar aos mais estouvados e impulsivos da nova casta que nos assola. Mas não. Pessoas, como eu, estiveram, até depois dos 65 anos, sem gastar um tostão ao Estado, com a sua saúde ou com a falta dela. Sempre, no entanto, descontando uma fatia pesada do seu salário, para uma ADSE, que talvez nos fosse útil, num período de necessidade, que se foi desejando longínquo.
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Chegado, já sobre o tarde, o momento de alguma necessidade, tudo nos é retirado, sem uma atenção, pequena que fosse, ao contrato anteriormente firmado. É quando mais necessitamos, para lutar contra a doença, contra a dor e contra o isolamento gradativamente crescente, que nos constituímos em alvo favorito do tiroteio fiscal: subsídios (que não passavam de uma forma de disfarçar a incompetência salarial), comparticipações nos custos da saúde, actualizações salariais – tudo pela borda fora. Incluindo, também, esse papel embaraçoso que é a Constituição, particularmente odiada por estes novos fundibulários. O que é preciso é salvar os ricos, os bancos, que andaram a brincar à Dona Branca com o nosso dinheiro e as empresas de tubarões, que enriquecem sem arriscar um cabelo, em simbiose sinistra com um Estado que dá o que não é dele e paga o que diz não ter,para que eles enriqueçam mais, passando a fruir o que também não é deles, porque até é nosso.
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Já alguém, aludindo à mesma falta de sensibilidade de que V. Exa. dá provas, em relação à velhice e aos seus poderes decrescentes e mal apoiados, sugeriu, com humor ferino, que se atirassem os velhos e os reformados para asilos desguarnecidos , situados, de preferência, em andares altos de prédios muito altos: de um 14.º andar, explicava, a desolação que se contempla até passa por paisagem. V. Exa. e os do seu governo exibem uma sensibilidade muito, mas mesmo muito, neste gosto. V. Exas. transformam a velhice num crime punível pela medida grande. As políticas radicais de V. Exa. e do seu robótico Ministro das Finanças - sim, porque a Troika informou que as políticas são vossas e não deles... – têm levado a isto: a uma total anestesia das antenas sociais ou simplesmente humanas, que caracterizam aqueles grandes políticos e estadistas que a História não confina a míseras notas de pé de página.
Já alguém, aludindo à mesma falta de sensibilidade de que V. Exa. dá provas, em relação à velhice e aos seus poderes decrescentes e mal apoiados, sugeriu, com humor ferino, que se atirassem os velhos e os reformados para asilos desguarnecidos , situados, de preferência, em andares altos de prédios muito altos: de um 14.º andar, explicava, a desolação que se contempla até passa por paisagem. V. Exa. e os do seu governo exibem uma sensibilidade muito, mas mesmo muito, neste gosto. V. Exas. transformam a velhice num crime punível pela medida grande. As políticas radicais de V. Exa. e do seu robótico Ministro das Finanças - sim, porque a Troika informou que as políticas são vossas e não deles... – têm levado a isto: a uma total anestesia das antenas sociais ou simplesmente humanas, que caracterizam aqueles grandes políticos e estadistas que a História não confina a míseras notas de pé de página.
Falei da velhice porque é o pelouro que, de momento, tenho mais à mão. Mas o sofrimento devastador, que o fundamentalismo ideológico de V. Exa. está desencadear pelo país fora, afecta muito mais do que a fatia dos velhos e reformados. Jovens sem emprego e sem futuro à vista, homens e mulheres de todas as idades e de todos os caminhos da vida – tudo é queimado no altar ideológico onde arde a chama de um dogma cego à fria realidade dos factos e dos resultados. Dizia Joan Ruddock não acreditar que radicalismo e bom senso fossem incompatíveis. V. Exa. e o seu governo provam que o são: não há forma de conviverem pacificamente. Nisto, estou muito de acordo com a sensatez do antigo ministro conservador inglês, Francis Pym, que
teve a ousadia de avisar a Primeira Ministra Margaret Thatcher (uma expoente do extremismo neoliberal), nestes termos: “Extremismo e conservantismo são termos contraditórios”. Pym pagou, é claro, a factura: se a memória me não engana, foi o primeiro membro do primeiro governo de Thatcher a ser despedido, sem apelo nem agravo. A “conservadora” Margaret Thatcher – como o “conservador” Passos Coelho – quis misturar água com azeite, isto é, conservantismo e extremismo. Claro que não dá.
teve a ousadia de avisar a Primeira Ministra Margaret Thatcher (uma expoente do extremismo neoliberal), nestes termos: “Extremismo e conservantismo são termos contraditórios”. Pym pagou, é claro, a factura: se a memória me não engana, foi o primeiro membro do primeiro governo de Thatcher a ser despedido, sem apelo nem agravo. A “conservadora” Margaret Thatcher – como o “conservador” Passos Coelho – quis misturar água com azeite, isto é, conservantismo e extremismo. Claro que não dá.
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Alguém observava que os americanos ficavam muito admirados quando se sabiam odiados. É possível que, no governo e no partido a que V. Exa. preside, a maior parte dos seus constituintes não se aperceba bem (ou, apercebendo-se, não compreenda), de que lavra, no país, um grande incêndio de ressentimento e ódio. Darei a V. Exa. – e com isto termino – uma pista para um bom entendimento do que se está a passar. Atribuíram-se ao Papa Gregório VII estas palavras: ”Eu amei a justiça e odiei a iniquidade: por isso, morro no exílio.” Uma grande parte da população portuguesa, hoje, sente-se exilada no seu próprio país, pelo delito de pedir mais justiça e mais equidade. Tanto uma como outra se fazem, cada dia, mais invisíveis. Há nisto, é claro, um perigo.
Alguém observava que os americanos ficavam muito admirados quando se sabiam odiados. É possível que, no governo e no partido a que V. Exa. preside, a maior parte dos seus constituintes não se aperceba bem (ou, apercebendo-se, não compreenda), de que lavra, no país, um grande incêndio de ressentimento e ódio. Darei a V. Exa. – e com isto termino – uma pista para um bom entendimento do que se está a passar. Atribuíram-se ao Papa Gregório VII estas palavras: ”Eu amei a justiça e odiei a iniquidade: por isso, morro no exílio.” Uma grande parte da população portuguesa, hoje, sente-se exilada no seu próprio país, pelo delito de pedir mais justiça e mais equidade. Tanto uma como outra se fazem, cada dia, mais invisíveis. Há nisto, é claro, um perigo.
De V. Exa., atentamente,
Eugénio Lisboa
Ex-Director da Total, em Moçambique
Ex-Director da SONAP MOCEx-Administrador da SONAPMOC e da SONAREP
sexta-feira, 17 de agosto de 2012
O Rei Elvis
domingo, 5 de agosto de 2012
"As pombas"_Zeca Afonso e Rui Pato
(A foto é desse sarau.)
"AS POMBAS"_autores:José Afonso e Luís Andrade
Canta José Afonso, acompanhado por Rui Pato, em viola.
quarta-feira, 25 de julho de 2012
O Azereiro,de Clara Ferreira Alves
Terça-feira, 24 de Julho de 2012
"É a falta de cultura, estúpido" - Clara Ferreira Alves
"É a falta de cultura, estúpido!
Portugal tem hoje uma pequeníssima elite que consome cultura, quase toda velha e sem sucessores.
Nós merecemos isto. Nós elegemos esta gente. Nós não somos muito diferentes disto. No meio do anedotário que converteria um homem mais inteligente num homem trágico, convém não esquecer o que nos separa, exatamente, do Relvas. Pouco. O dito não é um espécime isolado, um pobre diabo animado de força e disposição para fazer negócios e trepar na vida, que entrou em associações e cambalachos, comprou um curso superior e, de um modo geral, se autoinstituiu em conselheiro do rei. Já vimos isto.
Nunca vimos isto nesta escala, porque na 25ª hora da tragédia nacional, quando Portugal se confronta com a humilhação da venda dos bens preciosos (os famosos ativos) aos colonizados de antanho e seus amigos chineses, o que o país tem para mostrar como elite é pouco. Nada distingue hoje a burguesia do proletariado. Consomem as mesmas revistas do coração, lêem a mesma má literatura (que passa por literatura), vêem a mesma televisão, comovem-se com as mesmas distrações. Uns são ricos, outros pobres.
A elite portuguesa nunca foi estelar, e entre a expulsão dos judeus e a perseguição aos jesuítas, dispersámos a inteligência e adotámos uma apatia interrompida por acasos históricos que geraram alguns estrangeirados ou exilados cultos permanentemente amargos e desesperados com a pátria (Eça, Sena) e alguns heróis isolados ou desconhecidos (Pessoa, 0'Neill).
Em "Memorial do Convento", Saramago dá-nos um retrato da estupidez dos reis mas exalta romanticamente o povo. Todos os artistas comunistas o fizeram, num tempo em que o partido comunista tinha uma elite intelectual e de resistência inspirada por um chefe que, aos 80 anos, quase cego, resolveu traduzir Shakespeare. Cunhal traduzindo o "Rei Lear" de um lado, Relvas posando nas fotografias ao lado da bandeira do outro. Relvas nem personagem de Lobo Antunes, o (descritor da tristeza pós-colonial, chega a ser. É um subproduto de telenovela O tempo dos chefes cultos acabou, e se serve de consolação, não acabou apenas em Portugal.
A cultura de massas ganhou. No mundo pop, multimédia, inculto e narcisista, em que cada estúpido é o busto de si mesmo, a burguesia e o lúmpen distinguem-se na capacidade de fazer dinheiro. Acumular capital. O dinheiro, as discussões em volta do dinheiro acentuadas pela falta de dinheiro, fizeram do proletariado (e desse híbrido chamado classe média) uma massa informe de consumidores que votam. E que consomem democracia, os direitos fundamentais, como consomem televisão, pela imagem. Sócrates e o Armani, Passos Coelho e a voz de festival da canção. Nós, e quando digo nós digo o jornalismo na sua decadência e euforia suicidaria, criámos estas criaturas. Os Relvas, os Seguros, os Passos Coelhos, os amigos deles.
O jornalismo, aterrorizado com a ideia de que a cultura é pesada e de que o mundo tem de ser leve, nivelou a inteligência e a memória pelo mais baixo denominador comum, na esteira das televisões generalistas. Nasceu o avatar da cultura de massas que dá pelo nome de light culfure em oposição à destrinça entre high e low. O artista trabalha para o 'mercado', tal como o jornalista, sujeito ao raring das audiências e dos comentários online.
A brigada iletrada, como lhe chama Martin Amis, venceu. Estão admirados? John Carlin, o sul-africano autor do livro que foi adaptado ao cinema por Clint Eastwood, "Invictus", conta que Nelson Mandela e os homens do ANC, na prisão, discutiam acaloradamente, apaixonadamente, Shakespeare. Foram "Júlio César" ou "Macbeth", "Hamlet" ou "Ricardo III" que os acompanharam. Não é um preciosismo. A literatura, o poder das palavras para descrever e incluir o mundo num sistema coerente de pensamento, é, como a filosofia e a história, tão importante como a física ou a álgebra. A grande mostra da Grã-Bretanha nos Jogos Olímpicos é Shakespeare (no British Museum) e não um dono de supermercados ou futebolista.
Os 'heróis' portugueses descrevem-nos. E descrevem a nossa ignorância Passos Coelho é fotografado à entrada do La Féria ou do casino. Um dono de supermercados ou um esperto ministro reformado são os reservatórios do pensamento nacional. Uma artista plástica é incensada não pela obra mas pela capacidade de "agradar ao mercado", transformando-se, pela manifesta ausência de candidatos, em artista oficial do regime. É assim.
Não teria de ser assim. Portugal tem hoje uma pequeníssima elite que consome cultura quase toda velha e sem sucessores. Não estamos sós. Por esse mundo fora, a arte tornou-se cópia e reprodução (daí a predominância dos grandes copiadores de coisas, os chineses), tornou-se matéria tornou-se consumo. Como bem disse Vargas Iiosa, em vez de discutirmos ideias discutimos comida. A gastronomia é uma nova filosofia. Ferran Adriá é o sucessor de Cervantes e de Ortega Y Gasset."
Cara Ferreira Alves - Expresso - 21-07-2012
Portugal tem hoje uma pequeníssima elite que consome cultura, quase toda velha e sem sucessores.
Nós merecemos isto. Nós elegemos esta gente. Nós não somos muito diferentes disto. No meio do anedotário que converteria um homem mais inteligente num homem trágico, convém não esquecer o que nos separa, exatamente, do Relvas. Pouco. O dito não é um espécime isolado, um pobre diabo animado de força e disposição para fazer negócios e trepar na vida, que entrou em associações e cambalachos, comprou um curso superior e, de um modo geral, se autoinstituiu em conselheiro do rei. Já vimos isto.
Nunca vimos isto nesta escala, porque na 25ª hora da tragédia nacional, quando Portugal se confronta com a humilhação da venda dos bens preciosos (os famosos ativos) aos colonizados de antanho e seus amigos chineses, o que o país tem para mostrar como elite é pouco. Nada distingue hoje a burguesia do proletariado. Consomem as mesmas revistas do coração, lêem a mesma má literatura (que passa por literatura), vêem a mesma televisão, comovem-se com as mesmas distrações. Uns são ricos, outros pobres.
A elite portuguesa nunca foi estelar, e entre a expulsão dos judeus e a perseguição aos jesuítas, dispersámos a inteligência e adotámos uma apatia interrompida por acasos históricos que geraram alguns estrangeirados ou exilados cultos permanentemente amargos e desesperados com a pátria (Eça, Sena) e alguns heróis isolados ou desconhecidos (Pessoa, 0'Neill).
Em "Memorial do Convento", Saramago dá-nos um retrato da estupidez dos reis mas exalta romanticamente o povo. Todos os artistas comunistas o fizeram, num tempo em que o partido comunista tinha uma elite intelectual e de resistência inspirada por um chefe que, aos 80 anos, quase cego, resolveu traduzir Shakespeare. Cunhal traduzindo o "Rei Lear" de um lado, Relvas posando nas fotografias ao lado da bandeira do outro. Relvas nem personagem de Lobo Antunes, o (descritor da tristeza pós-colonial, chega a ser. É um subproduto de telenovela O tempo dos chefes cultos acabou, e se serve de consolação, não acabou apenas em Portugal.
A cultura de massas ganhou. No mundo pop, multimédia, inculto e narcisista, em que cada estúpido é o busto de si mesmo, a burguesia e o lúmpen distinguem-se na capacidade de fazer dinheiro. Acumular capital. O dinheiro, as discussões em volta do dinheiro acentuadas pela falta de dinheiro, fizeram do proletariado (e desse híbrido chamado classe média) uma massa informe de consumidores que votam. E que consomem democracia, os direitos fundamentais, como consomem televisão, pela imagem. Sócrates e o Armani, Passos Coelho e a voz de festival da canção. Nós, e quando digo nós digo o jornalismo na sua decadência e euforia suicidaria, criámos estas criaturas. Os Relvas, os Seguros, os Passos Coelhos, os amigos deles.
O jornalismo, aterrorizado com a ideia de que a cultura é pesada e de que o mundo tem de ser leve, nivelou a inteligência e a memória pelo mais baixo denominador comum, na esteira das televisões generalistas. Nasceu o avatar da cultura de massas que dá pelo nome de light culfure em oposição à destrinça entre high e low. O artista trabalha para o 'mercado', tal como o jornalista, sujeito ao raring das audiências e dos comentários online.
A brigada iletrada, como lhe chama Martin Amis, venceu. Estão admirados? John Carlin, o sul-africano autor do livro que foi adaptado ao cinema por Clint Eastwood, "Invictus", conta que Nelson Mandela e os homens do ANC, na prisão, discutiam acaloradamente, apaixonadamente, Shakespeare. Foram "Júlio César" ou "Macbeth", "Hamlet" ou "Ricardo III" que os acompanharam. Não é um preciosismo. A literatura, o poder das palavras para descrever e incluir o mundo num sistema coerente de pensamento, é, como a filosofia e a história, tão importante como a física ou a álgebra. A grande mostra da Grã-Bretanha nos Jogos Olímpicos é Shakespeare (no British Museum) e não um dono de supermercados ou futebolista.
Os 'heróis' portugueses descrevem-nos. E descrevem a nossa ignorância Passos Coelho é fotografado à entrada do La Féria ou do casino. Um dono de supermercados ou um esperto ministro reformado são os reservatórios do pensamento nacional. Uma artista plástica é incensada não pela obra mas pela capacidade de "agradar ao mercado", transformando-se, pela manifesta ausência de candidatos, em artista oficial do regime. É assim.
Não teria de ser assim. Portugal tem hoje uma pequeníssima elite que consome cultura quase toda velha e sem sucessores. Não estamos sós. Por esse mundo fora, a arte tornou-se cópia e reprodução (daí a predominância dos grandes copiadores de coisas, os chineses), tornou-se matéria tornou-se consumo. Como bem disse Vargas Iiosa, em vez de discutirmos ideias discutimos comida. A gastronomia é uma nova filosofia. Ferran Adriá é o sucessor de Cervantes e de Ortega Y Gasset."
Cara Ferreira Alves - Expresso - 21-07-2012
sexta-feira, 20 de julho de 2012
Fantasia "A Espanhola", de Octávio Sérgio
quarta-feira, 18 de julho de 2012
Entrevista a Octávio Sérgio_ Coimbra Canal
SÉRGIO de Matos Azevedo, Octávio (n. Viseu, 15 Ago. 1937). Guitarrista e compositor. Aos 13 anos tomou contacto com a Canção de Coimbra através da rádio (sobretudo a EN) e das serenatas a que assistia. Aprendeu a tocar guitarra de forma autodidacta, através da audição de fonogramas (sobretudo de Artur Paredes) e, com um grupo de amigos, começou a realizar várias serenatas em Viseu. Licenciou-se em... Ciências Físico-Químicas (1957-65) na Faculdade de Ciências da U.C., após ter interrompido o curso para cumprir o serviço militar. Enquanto estudante em Coimbra, integrou inicialmente um grupo com David Leandro (guitarra) e José Niza (viola). Posteriormente actuou ou integrou formações com vários guitarristas, violistas e cantores de Coimbra (Adriano Correia de Oliveira, António Bernardino, António Portugal, Jorge Gomes, Rui Pato, e. o.). O seu estilo interpretativo foi marcado pelo contacto com guitarristas como António Brojo, António Portugal, Jorge Tuna e, sobretudo, Carlos Paredes, com quem adquiriu uma perspectiva mais alargada das potencialidades da guitarra. Ainda durante o período universitário, começou a desenvolver interesse pela música erudita (através da audição de fonogramas), o que se reflectiu nas obras para guitarra que compôs a partir dessa época (muitas infelizmente perdidas), apesar de só a partir dos anos 70 ter recebido alguma aprendizagem formal na Academia de Amadores de Música, onde estudou viola com Piñero Nagy, e harmonia com Francine Benoit. Algumas das suas composições foram registadas em fonogramas de vários cantores (Janita Salomé, José Afonso, José Mesquita, e. o.) ou em nome próprio (1981). Foi músico acompanhador de Artur Paredes nos últimos dois anos da sua vida (1979-80) e, ao longo de 15 anos, manteve uma actividade regular com um grupo de canção de Coimbra, constituído por Durval Moreirinhas, Armando Silva Marta e António Bernardino, até à morte deste último (1996). Desde 1987, é guitarrista do Coro dos Antigos Orfeonistas, tendo actuado com esta formação em diversos países (África do Sul, Argentina, Brasil, Cabo-Verde, Canadá, EUA, Macau). Mostrando dominar a tradição musical coimbrã, as suas interpretações são marcadas pelo uso de elementos melódicos da música tradicional de várias regiões do país e pelo respeito pelas técnicas de acompanhamento da canção de Coimbra (realce dos sentidos da letra e de momentos chave da canção, suporte e complemento à interpretação vocal), mas complementando-as e enriquecendo-as com linhas melódicas menos comuns neste domínio musical. A interpretação de composições solistas ou de peças de sua autoria é por sua vez marcada por algum virtuosismo técnico e pela procura de soluções musicais menos frequentes na tradição guitarrística de Coimbra, aspecto sobretudo patente em algumas progressões harmónicas.
http://www.coimbracanal.com/pt/play/2-destaques/215-protagonistas-octavio-sergio-1-parte
http://www.coimbracanal.com/pt/play/2-destaques/215-protagonistas-octavio-sergio-1-parte
terça-feira, 17 de julho de 2012
José Afonso_"Fado da Sugestão"
MÚSICAS E CANTARES DE COIMBRA
“Fado da Sugestão”
José Afonso brinda-nos com uma interpretação lindíssima de letra popular e música de Felisberto Ferreirinha (nascido em Espinho nos finais do século XIX), acompanhado por um elenco notável: Octávio Sérgio na guitarra, Durval Moreirinhas e Janita Salomé na viola. Esta preciosidade encontra-se numa faixa do disco “Fados de Coimbra e outras canções” (L...P de 1981).
Letra do “Fado da Sugestão”:
Não digas não dize sim,
Muito embora amor não sintas.
O não envenena a gente.
Dize sim, ainda que mintas.
Não digas não dize sim,
Sê ao menos a primeira.
Falta-me embora a verdade,
Não sejas tão verdadeira.
quarta-feira, 11 de julho de 2012
José Parente

José Parente

Retrato do executante de Guitarra de Coimbra e compositor José Parente, publicado em "O Notícias Ilustrado", Nº 44, Série II, de 14 de Abril de 1929, em publicidade à editora His Master's Voice. Durante muito tempo interroguei-me sobre quem seria este compositor e executante de bom nível, presente em gravações de Felisberto Ferreirinha, Alexandre Rezende e nos discos em que é solista de inúmeras "guitarradas".
Para se ter uma pequena ideia, Parente gravou por volta de 1927, com Felisberto Ferreirinha (cantor) e Campos Costa (violão), na Parlophone, os temas Fado da Praia, Fado da Sugestão, Fado Antigo de Coimbra, Fado da Graça, Fado da Enfermeira, Fado das Perdidas, Fado da Beira Mar, Fado do Queixume, Fado Maria (=Manassés) e Pálidas Madrugadas (=Fado das Ruas); mais ou menos pela mesma altura, também na Parlophone, gravou com Alexandre Rezende (voz) e Campos Costa (violão) uns 8 temas nos estilos Coimbra e Lisboa; ao longo de 1928 fez pelo menos 4 sessões de gravações em Lisboa (com Abel Negrão) onde tocou instrumentalmente peças de sua autoria e umas 7 a 8 composições de Paulo de Sá (melodias de temas cantáveis).
Ele há estranhas coincidências. Tendo em conta a passagem dos 10 anos do falecimento do antigo estudante da Faculdade de Letras da UC, 1º violino da TAUC e executante "envergonhado" de Guitarra Toeira de Coimbra Vergílio Ferreira (28/01/1916; 01/03/1996) telefonei à Dra. Mariberta Carvalhal a pedir-lhe que me ajudasse a encontrar a referência que o escritor deixou no diário à famosa Serenata Monumental de 1989 transmitida pela RTP. Conversa puxa conversa, lá clarificámos que Vergílio visionou emocionadíssimo a transmissão em directo da Serenata Monumental da Queima das Fitas de 5 de Maio de 1989, conforme regista no "Conta Corrente", 2ª Série, 1989, pág. 79, com alusões à sua querida colega de curso Mariberta Carvalhal. Daqui saltámos para um longo artigo de Jorge Costa Lopes, "A paixão da música segundo Vergílio Ferreira", Suplemento Das Artes Das Letras, O Primeiro de Janeiro, de 27 de Fevereiro de 2006, págs. 6-12. Pois não é que os Parentes foram importantes figuras dos meios musicais de Gouveia/Manteigas, activos nas décadas de 1920/1930 (tuna, Orfeão de Gouveia, serões musicais)?
O Padre António de Jesus Hipólito Parente, pároco de Melo a partir de 1925, professor de violino de Vergílio Ferreira, sabia música, fundou uma tuna local, e tocava diversos instrumentos. Um outro irmão, o Padre Joaquim Dias Parente, pároco em Manteigas, tocava magistralmente Guitarra de Coimbra. Era autor de peças como "Fado do Pastor" e "As Sardinheiras". Considerado bom artista na execução da guitarra, mas inferior a Joaquim Parente, era o mano José Parente. José Parente tinha uma filha, Maria Natália da Fonseca Parente, com nomeada na região serrana pelas suas execuções pianísticas. O periódico local, "Notícias de Gouveia", de 17 de Fevereiro de 1933, descreve o programa de um sarau de homenagem ao Padre António Parente (já então padre em Gouveia), organizado pelo Orfeon de Gouveia, onde além dos trechos de piano e de violino, brilharam na 4ª parte nas "guitarradas" os manos Padre Joaquim Dias Parente e José Parente. Além de inveterados melómanos, os manos Parentes eram musicalmente ilustrados.
A identificação de executantes de guitarra em Gouveia no 1º quartel do século XX é um dado importante, como que a confirmar as vendas de cordofones construídos nas oficinas de Coimbra pelos diversos povoados da Beira Litoral e região serrana, corroborando ainda as suspeitas de José Alberto Sardinha quanto a uma mais ancestral implantação da Guitarra nos meios rurais (Cf. "Tradições muisicais da Estremadura", 2000). Afinal não era só em Anadia, Mealhada e Arganil que nos tempos da juventude de Antero da Veiga se tocava guitarra.
AMNunesposted by Octávio Sérgio at Sexta-feira, Março 03, 2006 emhttp://guitarradecoimbra.blogspot.com.es/2006/03/jos-parente-retrato-do-executante-de.html
quinta-feira, 21 de junho de 2012
"Despedida"_Francisco Filipe Martins (do CD "Primavera 2", de 1986)
"Despedida", um tema de Francisco Filipe Martins, repleto de sentimento e nostalgia, muito bem interpretado por quatro virtuosos:
Francisco Martins (guitarra de Coimbra), com acompanhamento de Manuel Rocha (violino), Rui Pato e Humberto Matias (viola).
quinta-feira, 14 de junho de 2012
O guitarrista Raul Nery, 91 anos, faleceu hoje
Guitarrada - Lisboa Atardecer - Raul Nery e Joaquim do Vale
O guitarrista Raul Nery, 91 anos, faleceu hoje. Raul Nery era pai de Rui Vieira Nery, musicólogo e principal obreiro pela subida do Fado a Património Imaterial da Humanidade.
O guitarrista Raul Nery, 91 anos, faleceu hoje. Raul Nery era pai de Rui Vieira Nery, musicólogo e principal obreiro pela subida do Fado a Património Imaterial da Humanidade.
terça-feira, 5 de junho de 2012
"Fado Triste"_Ensaio do grupo "Raizes de Coimbra"; canta Mário Rovira
sábado, 2 de junho de 2012
Há alguns incompetentes, mas poucos inocentes, de Miguel Sousa Tavares
Há alguns incompetentes, mas poucos inocentes
O que poderemos nós pensar quando, depois de tantos anos a exigir o fim das SCUT, descobrimos que, afinal, o fim das auto-estradas sem portagens ainda iria conseguir sair mais caro ao Estado?
Como caixa de ressonância daqueles que de quem é porta-voz (tendo há muito deixado de ter voz própria), o presidente da Comissão Europeia, o português Durão Barroso, veio alinhar-se com os conselhos da troika sobre Portugal: não há outro caminho que não o de seguir a “solução” da austeridade e acelerar as “reformas estruturais” — descer os custos salariais, liberalizar mais ainda os despedimentos e diminuir o alcance do subsídio de desemprego. Que o trio formado pelo careca, o etíope e o alemão ignorem que em Portugal se está a oferecer 650 euros de ordenado a um engenheiro electrotécnico falando três línguas estrangeiras ou 580 euros a um dentista em horário completo é mais ou menos compreensível para quem os portugueses são uma abstracção matemática. Mas que um português, colocado nos altos círculos europeus e instalado nos seus hábitos, também ache que um dos nossos problemas principais são os ordenados elevados, já não é admissível. Lembremo-nos disto quando ele por aí vier candidatar-se a Presidente da República.
Durão Barroso é uma espécie de cata-vento da impotência e incompetência dos dirigentes europeus. Todas as semanas ele cheira o vento e vira-se para o lado de onde ele sopra: se os srs. Monti, Draghi, Van Rompuy se mostram vagamente preocupados com o crescimento e o emprego, lá, no alto do edifício europeu, o cata-vento aponta a direcção; se, porém, na semana seguinte, os mesmos senhores mais a srª Merkel repetem que não há vida sem austeridade, recessão e desemprego, o cata-vento vira 180 graus e passa a indicar a direcção oposta. Quando um dia se fizer a triste história destes anos de suicídio europeu, haveremos de perguntar como é que a Europa foi governada e destruída por um clube fechado de irresponsáveis, sem uma direcção, uma ideia, um projecto lógico. Como é que se começou por brincar ao directório castigador para com a Grécia para acabar a fazer implodir tudo em volta. Como é que se conseguiu levar a Lei de Murphy até ao absoluto, fazendo com que tudo o que podia correr mal tivesse corrido mal: o contágio do subprime americano na banca europeia, que era afirmadamente inviável e que estoirou com a Islândia e a Irlanda e colocou a Inglaterra de joelhos; a falência final da Grécia, submetida a um castigo tão exemplar e tão inteligente que só lhe restou a alternativa de negociar com as máfias russas e as Three Gorges chinesas; como é que a tão longamente prevista explosão da bolha imobiliária espanhola acabou por rebentar na cara dos que juravam que a Espanha aguentaria isso e muito mais; como é que as agências de notação, os mercados e a Goldman Sachs puderam livremente atacar a dívida soberana de todos os Estados europeus, excepto a Alemanha, numa estratégia concertada de cerco ao euro, que finalmente tornou toda a Europa insolvente. Ou como é que um pequeno país, como Portugal, experimentou uma receita jamais vista — a de tentar salvar as finanças públicas através da ruína da economia —e que, oh, espanto, produziu o resultado mais provável: arruinou uma coisa e outra. E como é que, no final de tudo isto, as periferias implodiram e só o centro — isto é, a Alemanha e seus satélites — se viu coberto de mercadorias que os seus parceiros europeus não tinham como comprar e atulhado em triliões de euros depositados pelos pobres e desesperados e que lhes puderam servir para comprar tudo, desde as ilhas gregas à água que os portugueses bebiam.
Deixemos os grandes senhores da Europa entregues à sua irrecuperável estupidez e detenhamo-nos sobre o nosso pequeno e infeliz exemplo, que nos serve para perceber que nada aconteceu por acaso, mas sim porque umas vezes a incompetência foi demasiada e outras a inocência foi de menos.
O que podemos nós pensar quando o ex-ministro Teixeira dos Santos ainda consegue jurar que havia um risco sistémico de contágio se não se nacionalizasse aquele covil de bandidos do BPN? Será que todo o restante sistema bancário também assentava na fraude, na evasão fiscal, nos negócios inconfessáveis para amigos, nos bancos-fantasmas em Cabo Verde para esconder dinheiro e toda a restante série de traficâncias que de há muito — de há muito! — se sabia existirem no BPN? E como, com que fundamento, com que ciência, pode continuar a sustentar que a alternativa de encerrar, pura e simplesmente, aquele vão de escada “faria recuar a economia 4%”? Ou que era previsível que a conta da nacionalização para os contribuintes não fosse além dos 700 milhões de euros?
O que poderemos nós pensar quando descobrimos que à despesa declarada e à dívida ocultada pelo dr. Jardim ainda há a somar as facturas escondidas debaixo do tapete, emitidas pelos empreiteiros amigos da “autonomia” e a quem ele prometia conseguir pagar, assim que os ventos de Lisboa lhe soprassem mais favoravelmente?
O que poderemos nós pensar quando, depois de tantos anos a exigir o fim das SCUT, descobrimos que, afinal, o fim das auto-estradas sem portagens ainda iria conseguir sair mais caro ao Estado? Como poderíamos adivinhar que havia uns contratos secretos, escondidos do Tribunal de Contas, em que o Estado garantia aos concessionários das PPP que ganhariam sempre X sem portagens e X+Y com portagens? Mas como poderíamos adivinhá-lo se nos dizem sempre que o Estado tem de recorrer aos serviços de escritórios privados de advocacia (sempre os mesmos), porque, entre os milhares de juristas dos quadros públicos, não há uma meia dúzia que consiga redigir um contrato em que o Estado não seja sempre comido por parvo?
A troika quer reformas estruturais? Ora, imponha ao Governo que faça uma lei retroactiva— sim, retroactiva — que declare a nulidade e renegociação de todos os contratos celebrados pelo Estado com privados em que seja manifesto e reconhecido pelo Tribunal de Contas que só o Estado assumiu riscos, encaixou prejuízos sem correspondência com o negócio e fez figura de anjinho. A Constituição não deixa? Ok, estabeleça-se um imposto extraordinário de 99,9% sobre os lucros excessivos dos contratos de PPP ou outros celebrados com o Estado. Eu conheço vários.
Quer outra reforma, não sei se estrutural ou conjuntural, mas, pelo menos, moral? Obrigue os bancos a aplicarem todo o dinheiro que vão buscar ao BCE a 1% de juros no financiamento da economia e das empresas viáveis e não em autocapitalização, para taparem os buracos dos negócios de favor e de influência que andaram a financiar aos grupos amigos.
Mais uma? Escrevam uma lei que estabeleça que todas as empresas de construção civil, que estão paradas por falta de obras e a despedir às dezenas de milhares, se possam dedicar à recuperação e remodelação do património urbano, público ou privado, pagando 0% de IRC nessas obras. Bruxelas não deixa? Deixa a Holanda ter um IRC que atrai para lá a sede das nossas empresas do PSI-20, mas não nos deixa baixar parte dos impostos às nossas empresas, numa situação de emergência? OK, Bruxelas que mande então fechar as empresas e despedir os trabalhadores. Cumpra-se a lei!
Outra? Proíbam as privatizações feitas segundo o modelo em moda, que consiste em privatizar a parte das empresas que dá lucro e deixar as “imparidades” a cargo do Estado: quem quiser comprar leva tudo ou não leva nada. E, já agora, que a operação financeira seja obrigatoriamente conduzida pela Caixa Geral de Depósitos (não é para isso que temos um banco público, por enquanto?). O quê, a Caixa não tem vocação ou aptidão para isso? Não me digam! Então, os administradores são pagos como privados, fazem negócios com os grandes grupos privados, até compram acções dos bancos privados e não são capazes de fazer o que os privados fazem? E, quanto à engenharia jurídica, atenta a reiterada falta de vocação e de aptidão dos serviços contratados em outsourcing para defenderem os interesses do cliente Estado, a troika que nos mande uma equipa de juristas para ensinar como se faz.
Tenho muitas mais ideias, algumas tão ingénuas como estas, mas nenhumas tão prejudiciais como aquelas com que nos têm governado. A próxima vez que o careca, o etíope e o alemão cá vierem, estou disponível para tomar um cafezinho com eles no Ritz. Pago eu, porque não tenho dinheiro para os juros que eles cobram se lhes ficar a dever.
(Público, 2 de Junho de 2012)
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