terça-feira, 27 de dezembro de 2011

As broas de Natal à Moda de Coja e Os Erros do Eduquês





Recebi uma receita de culinária como "Comentário" ao artigo "OS ERROS DO "EDUQUÊS, reflexão de Carlos Fiolhais, professor e cientista ".
Julgo que o autor ("Anónimo") se deve ter equivocado e que provavelmente tencionava escrever a receita num blogue de culinária e talvez tenha falta de vista ou esteja a dar os primeiros passos em informática... Certamente não o fez como resposta ao texto nem deve ter confundido os "Eduquês" com uma espécie de broas de Natal!
Acredito que reflexões sobre o ensino e as suas pedagogias não sejam interessantes para qualquer indivíduo. No entanto quando resolvi iniciar um blogue foi com a intenção de publicar artigos de matemática, já que esta é a minha área, pensando poder criar algo do interesse de alguns jovens, apoiando-os com artigos matemáticos, questões motivantes e propostas de resolução. Contava para isso com o apoio da minha Editora, esperando obter os CDs dos livros de Matemática de que fui autora e coautora... Ainda hoje estou à espera desses CDs e sem eles esse meu projecto tornou-se impossível. Desta forma, resolvi virar-me para a minha outra paixão, a Música, e limito-me a partilhar escolhas minhas, com a remota esperança de que um dia esta página possa vir a ser um blogue.


Como estamos na quadra natalícia e este meu blogue é uma miscelânea de temas soltos, provavelmente desinteressantes, inodoros e insípidos, por que não partilhar esta "receita" que "erradamente" me foi enviada como comentário aos "Erros do Eduquês" e assim poder ir ao encontro de certos possíveis visitantes do meu blogue que enjoam com facilidade quando os temas exigem um pouco mais de ginástica intelectual.
Se não concordou com a reflexão do Prof. Carlos Fiolhais, podia enviar a sua opinião que seria bem vinda...Mas comentar com as broas de Coja só pode ser resultado de uma sentida e incómoda "agressão" do seu universo de interesses que o levou a agredir, por sua vez, quem se expõe, escrevendo e revelando os seus gostos publicamente, ao invés de se refugiar em subterrâneos via email, onde nada se arrisca, tudo se pode dizer, "assinando" trabalhos alheios. 
Sendo assim, aqui fica, ipsis verbis, o "Comentário":

Broas de Natal à Moda de Coja       
Ingredientes 2,5 Kg de abóbora-menina 2 Kg de farinha de trigo 0.5 Kg de farinha de milho 0.5 Kg de açúcar 125 Gramas de fermento de padeiro 0.5 Kg de nozes descascadas 200 Gramas de pinhões descascados 150 Gramas de figos secos 150 Gramas de passas de uva 0.5 Kg de frutas cristalizadas diversificadas 150 Gramas de erva-doce em pó Sal (q.b.) Preparação/Confecção Descasque a abóbora, retire-lhe as sementes e corte-a em cubos regulares. Coloque a abóbora a cozer em água com um pouco de sal. Quando esta estiver cozida, retire-a da água, escorra-a muito bem e deixe-a arrefecer ligeiramente. Misture-a com a farinha, o açúcar, o sal e a erva-doce, num alguidar e amasse tudo muito bem em conjunto. Dilua o fermento num pouco de água da cozedura da abóbora. Junte o fermento diluído à massa, trabalhando-a muito bem. Misture os frutos secos e as frutas cristalizadas previamente cortados em pedaços pequenos, com excepção dos pinhões. Depois de tudo bem amassado, deixe a massa levedar dentro do alguidar, tapada com um cobertor de lã em local morno e sem correntes de ar. Aqueça o forno de lenha. Quando o forno estiver bem quente puxe as brasas para a boca do forno. Traga a gamela com a massa lêveda para junto do forno e começa-se a tender aa broas numa tijela tendedeira previamente polvilhada com farinha. Coloque as broas no forno com o auxílio de uma pá polvilhada com farinha, a fim de cozer, tendo o cuidado de começar do fundo para a boca. Tape a boca do forno. Vá verificando se aa broas não estão a ficar queimadas e, se necessário. abra um pouco a porta do forno. No fim de cozidas, retire as broas do forno e coloque-as a arrefecer.

domingo, 25 de dezembro de 2011

OS ERROS DO "EDUQUÊS", reflexão de Carlos Fiolhais, professor e cientista


OS ERROS DO "EDUQUÊS"

Ficou famosa a invectiva do antigo ministro da Educação Marçal Grilo, quando um dia solicitou que se deixasse de falar "eduquês", o dialecto cerrado e incompreensível com o qual se tenta justificar o "status quo" educativo, para passarem a falar português corrente que todos entendessem. Estava visivelmente incomodado com a obscuridade de alguns chamados cientistas da educação. A expressão ficou e qualquer dia será dicionarizada.

O certo é que, sob o manto diáfano dessa prosa, escondem-se por vezes os maiores erros e outras vezes simples vacuidades, que de tão desprovidas de nexo nem sequer erros chegam a ser. Esses erros são responsáveis em larga medida pelo estado pouco mais do que calamitoso da educação nacional, incluindo em particular o ensino das ciências.

Vale a pena enumerar alguns, quanto mais não seja para impedir disseminações maiores. Uma vez que tal discurso vaporoso é copiado em segunda ou terceira mão de autores bem intencionados mas desligados das realidades ou desactualizados e já foi ou está a ser contraditado noutras paragens, basta citar uma polémica que há poucos anos surgiu nos Estados Unidos. Contra o "eduquês" norte-americano ergueu-se, entre outras, a voz de E. D. Hirsch, Jr., professor na Universidade de Virgínia e autor do "best-seller intitulado "Cultural Literacy". No livro de Hirsch referenciado em baixo e cujo título em português se pode traduzir por "As escolas que precisamos e por que razão não as temos", há um glossário que refere os cinco temas maiores do "eduquês". Vejamos quais são e uma mão cheia de expressões que os sustentam:

  • Concepção instrumental da educação: "aprender a aprender", "aptidão para o pensamento crítico", "aptidões metacognitivas", "aprendizagem permanente".
  • Desenvolvimentalismo romântico: "aprendizagem ao ritmo dos alunos", "escola centrada na criança", "diferenças individuais dos alunos", "estilos individuais de aprendizagem", "inteligências múltiplas", "ensinar a criança e não a matéria".
  • Pedagogia naturalista: "construtivismo", "aprendizagem cooperativa", "aprendizagem por descoberta", "aprendizagem holística", "método de projecto", "aprendizagem temática".
  • Antipatia ao ensino de conteúdos: "os factos não contam tanto como a compreensão", "os factos ficam desactualizados", "menos é mais", "aprendizagem para a compreensão".

Estas expressões podem parecer familiares a alguns leitores, nomeadamente aos que frequentaram escolas de educação ou simplesmente seguiram disciplinas educacionais ainda que noutras escolas. É que elas permeiam muito do que aí se transmite. Apesar de algumas poderem fazer sentido de "per si" (encerram algo de trivial), aparecem normalmente mal baralhadas, confundindo quem as ouve ou quem as lê.

Por exemplo, o "aprender a aprender" (sic) é, em geral, apenas um jogo de palavras que inebria quem as profere. Usa-se também neste contexto o dito proverbial "mais vale ensinar a pescar que dar um peixe". Nesta concepção educativa, interessa mais o instrumento – a cana de pesca – do que propriamente o peixe. Quem diz isso é capaz de ficar a pescar horas perdidas sem pescar nada, não se importando nada com isso. De resto, quem diz isso parte de um erro: que se pode separar o conhecimento factual da atitude para o adquirir. Como se poderão transmitir atitudes em abstracto sem objectos que as exijam?

Outro exemplo: a "aprendizagem ao ritmo dos alunos" pretende inculcar a ideia romântica que os alunos se devem desenvolver naturalmente, sem imposições exteriores. Poderá parecer sensata mas é profundamente ingénua. Muita evidência acumulada desde há muito tempo mostra que a imposição pelos professores de objectivos, prazos, níveis de exigência e recompensas adequadas consegue aumentar em muito a aprendizagem dos alunos. Os alunos, abandonados ao seu ritmo, estão definitivamente condenados ao fracasso.

O construtivismo, por sua vez, é uma doutrina psicológica e sociológica que já conheceu melhores dias. Defende que só as ideias construídas pelo próprio têm consistência suficiente para permanecerem. Há um certo fundo de verdade nessa afirmação, mas é completamente delirante esperar que o menino Joãozinho, que está no nono ano do básico, corra um dia da banheira a dizer "eureka!" tal qual Arquimedes. Podem bem esperar os construtivistas que um aluno construa a lei da impulsão sozinho, ou, a níveis mais avançados, a lei da gravitação universal ou a teoria da relatividade geral.

Por último, desmontemos a frase que "os factos não contam tanto como a compreensão". É claro que os factos contam mais se forem relacionados entre si, podendo nós chamar compreensão a essa visão global. Mas estas relações, se forem bem estabelecidas (isto é, comprovadas), são evidentemente novos factos. Portanto, os factos e a sua compreensão são inextricáveis. Como diz Hirsh: "Se a compreensão depende dos factos, é simplesmente contraditório louvar a compreensão em detrimento dos factos".

 Muito mais se poderia dizer. Poder-se-ia mostrar extensivamente como é absurda uma escola sem currículo, uma escola sem avaliação e uma escola sem o lugar central reservado ao professor. Todo esse absurdo seria inócuo se ele não dominasse quase por completo o Ministério da Educação português e, por osmose, a generalidade das nossas escolas. Não se tratará da influência nefasta de um partido ou de outro, pois todos os partidos que têm passado pelo governo têm decerto culpas no seu cartório. Não haverá decerto uma exclusiva responsabilidade individual de um governante. Mas, no passado, houve ministros que, em momentos de maior clarividência, interpelaram o "eduquês". E agora?

(Transcrito de O Primeiro de Janeiro. Escrito por Carlos Fiolhais, professor e cientista)
Do site "Casa da Matemática", do meu colega e amigo Dr. José Leal:
http://www.prof2000.pt/users/casamat/index.htm