sexta-feira, 27 de maio de 2011
Indignats | Desallotjament de la Plaça Catalunya
BARCELONA, a linda Barcelona, palco de barbaridades, HOJE: A DEMOCRACIA EUROPEIA A RASGAR-SE EM MIL PEDAÇOS...
quinta-feira, 26 de maio de 2011
Intervenção de Carlos Carranca nas Comemorações do Museu Académico (Biblioteca Joanina, 21 de Maio de 2011)
Senhor Reitor Fernando Rebelo,
Dr. Emídio Guerreiro,
Meus queridos amigos e amigas,
Tudo quanto aqui expresso em ideias faço-o à memória do meu velho amigo Dr. Teixeira Santos, Director do Museu Académico.
...A Universidade de hoje existe para levar a todos os homens e mulheres os direitos que eles não tiveram nunca na nossa cultura: o direito à poesia para todos.
O ensino fornece conhecimento, saberes, porém, apesar da sua importância, nunca se ensina o que é, de facto, o conhecimento. E sabemos todos que o maior dos problemas é o erro e a ilusão.
Assim, o conhecimento é sempre uma tradução, seguida de uma reconstrução, como nos diz Edgar Morin. Assim as traduções e as reconstruções comportam sempre o risco do erro e muitas vezes o erro maior é pensarmos que a ideia é a realidade.
Cada um de nós pensa que as suas ideias são as mais evidentes e que estas levam a ideias normativas. As que não estão dentro das nossas normas são julgadas como ridículas ou infundadas. Isso ocorre frequentemente no domínio das religiões, da política e até das ciências. Portanto, o problema do conhecimento é, na minha opinião, o problema da convivialidade, do respeito que me obriga a atender ao conhecimento que cada um faz da realidade que o envolve.
Podemos, ou não, compreender a complexidade humana através da leitura, mas juro-vos, é a poesia que nos ensina a ver a qualidade que nós sentimos diante de factos da realidade.
A vida não é para ser vivida em prosa. A vida é para ser vivida poeticamente na paixão, no entusiasmo.
Sou pela lógica afectiva e sei que ela nos fragiliza, mas em compensação, leva-nos a compreender o que pode ser conhecido pelo coração.
Nesta hora particularmente dramática da vida de Portugal haverá raparigas e rapazes prontos a dar o seu contributo generoso e limpo por uma sociedade mais justa, mais livre e mais fraterna. O que importa é saber escolher entre o Amor e o Medo.
Segue-se o Texto Serenata Nuclear escrito por mim no ano de 1988, à memória do povo da Alta de Coimbra, os Salatinas.
*
Sonhei-te, a meu jeito, minha. Como tudo a que amo, fantástico espaço renascido, entre a terra e o céu. Filha de gente simples, romance de um povo cantador de fogueiras, balada indefinida entre a vida e o sonho.
Amor ou ódio, não sei. Sentimento extremo, desequilíbrio amoroso. Como te odeio, minha amada!...
Oh noite, companheira dos meus passos vagarosos. Palácio onde as sombras, almas, vagueiam vivas, mais vivas do que a gente deste tempo deserdado.
Anto, meu querido Anto, como gosto de passear contigo!... Ainda moras no Beco da Carqueja, noites de “ai olé”com muitas e lindas raparigas cantando sob a noite “ai olé”… “ai olé”.
E a terra, meu amigo?! Como ela paira sobre o tempo. Que deliciosa vida, dizes-me tu, adentro destas quatro paredes erguidas ao alto.
Torre de Anto, a Sub-Ripas. Abre as ogivas talhadas nessas pedras milenares, olha Mondego. Coimbra agasalhada entre choupais, dizes-me tu, Coimbra do passado… digo-te eu.
- Anto, serão os homens que fazem o mundo feio? Dizes-me tu que sim, que lhe tiram a espiritualidade, e depois dos homens o Sol. E que é bom viver na Torre só na Torre, cerrar as ogivas sobre o dia e abri-las, à noite, toda a noite, nas horas em que se fecham para a Vida as janelas e varandas burguesas.
Velha Alta onde a Lua dominava o Sol nada podia contra aquela vontade de pedra.
Tias camelas a darem de cear aos estudantes “- Noites de João Penha com Hamlet, Junqueiro e vinho da Bairrada.”
Como um santuário de alegria, irreverência, de boémia, da tasca da Rua do Borralho o cheiro a peixe frito rescendia temperado com versos de Antero.
De luvas e charuto entre os dedos cantava João Penha:
“Oh vós, que do canto sois velhos fregueses,
Ouvi destas liras o mélico emprego!
Nós somos as gemas, os bifes ingleses,
Os paios das filhas do claro Mondego.”
Noites de Coimbra, clandestinas, com Antero de cabeleira e barba de cor de fogo, a
incendiar o mundo.
Velhas ruas, do Guedes, das Flores, das Colchas, das Parreiras…. calcorreadas por
aqueles que lhes sabiam dar a medida da tradição e do nosso romantismo. Aqueles como o lendário Pad Zé a quem João Penha chamou “o último estudante de Coimbra”, verdadeiro cultor da ceia, definindo-a como “a alavanca estática de toda a vida psíquica e psicológica do complexo organismo craniano”. A refeição fundamental.
Era noite em Coimbra. Pairava no ar um apelo, um perfume como sonho, todo espírito, todo sentimento. Os acordes de uma guitarra enchiam o ilimitado espaço da poesia. Depois, uma voz rasgava a penumbra da noite e como uma seta atingia o coração da cidade:
“Coimbra menina e moça,
Rouxinol de Bernardim
Não há terra como a nossa
Não há no mundo outra assim”.
Coimbra de outros tempos, do lado de lá. Coimbra da Rua Larga, do Largo da Feira, da Rua do Cosme, da Rua de S. João, por onde passavam estudantes, salatinas e tricanas irmanados inconscientemente no amor à velha cidade. Coimbra assassinada.
Lá diz o poeta - são os homens que fazem o mundo feio!
Demoliram as casas, as ruas desapareceram e onde reinava a Lua, agora é o Sol que impiedosamente queima o espaço transformado, enorme, onde não cabem nem povo, nem fogueiras, nem cantigas.
Carlos Carranca
Dr. Emídio Guerreiro,
Meus queridos amigos e amigas,
Tudo quanto aqui expresso em ideias faço-o à memória do meu velho amigo Dr. Teixeira Santos, Director do Museu Académico.
...A Universidade de hoje existe para levar a todos os homens e mulheres os direitos que eles não tiveram nunca na nossa cultura: o direito à poesia para todos.
O ensino fornece conhecimento, saberes, porém, apesar da sua importância, nunca se ensina o que é, de facto, o conhecimento. E sabemos todos que o maior dos problemas é o erro e a ilusão.
Assim, o conhecimento é sempre uma tradução, seguida de uma reconstrução, como nos diz Edgar Morin. Assim as traduções e as reconstruções comportam sempre o risco do erro e muitas vezes o erro maior é pensarmos que a ideia é a realidade.
Cada um de nós pensa que as suas ideias são as mais evidentes e que estas levam a ideias normativas. As que não estão dentro das nossas normas são julgadas como ridículas ou infundadas. Isso ocorre frequentemente no domínio das religiões, da política e até das ciências. Portanto, o problema do conhecimento é, na minha opinião, o problema da convivialidade, do respeito que me obriga a atender ao conhecimento que cada um faz da realidade que o envolve.
Podemos, ou não, compreender a complexidade humana através da leitura, mas juro-vos, é a poesia que nos ensina a ver a qualidade que nós sentimos diante de factos da realidade.
A vida não é para ser vivida em prosa. A vida é para ser vivida poeticamente na paixão, no entusiasmo.
Sou pela lógica afectiva e sei que ela nos fragiliza, mas em compensação, leva-nos a compreender o que pode ser conhecido pelo coração.
Nesta hora particularmente dramática da vida de Portugal haverá raparigas e rapazes prontos a dar o seu contributo generoso e limpo por uma sociedade mais justa, mais livre e mais fraterna. O que importa é saber escolher entre o Amor e o Medo.
Segue-se o Texto Serenata Nuclear escrito por mim no ano de 1988, à memória do povo da Alta de Coimbra, os Salatinas.
Sonhei-te, a meu jeito, minha. Como tudo a que amo, fantástico espaço renascido, entre a terra e o céu. Filha de gente simples, romance de um povo cantador de fogueiras, balada indefinida entre a vida e o sonho.
Amor ou ódio, não sei. Sentimento extremo, desequilíbrio amoroso. Como te odeio, minha amada!...
Oh noite, companheira dos meus passos vagarosos. Palácio onde as sombras, almas, vagueiam vivas, mais vivas do que a gente deste tempo deserdado.
Anto, meu querido Anto, como gosto de passear contigo!... Ainda moras no Beco da Carqueja, noites de “ai olé”com muitas e lindas raparigas cantando sob a noite “ai olé”… “ai olé”.
E a terra, meu amigo?! Como ela paira sobre o tempo. Que deliciosa vida, dizes-me tu, adentro destas quatro paredes erguidas ao alto.
Torre de Anto, a Sub-Ripas. Abre as ogivas talhadas nessas pedras milenares, olha Mondego. Coimbra agasalhada entre choupais, dizes-me tu, Coimbra do passado… digo-te eu.
- Anto, serão os homens que fazem o mundo feio? Dizes-me tu que sim, que lhe tiram a espiritualidade, e depois dos homens o Sol. E que é bom viver na Torre só na Torre, cerrar as ogivas sobre o dia e abri-las, à noite, toda a noite, nas horas em que se fecham para a Vida as janelas e varandas burguesas.
Velha Alta onde a Lua dominava o Sol nada podia contra aquela vontade de pedra.
Tias camelas a darem de cear aos estudantes “- Noites de João Penha com Hamlet, Junqueiro e vinho da Bairrada.”
Como um santuário de alegria, irreverência, de boémia, da tasca da Rua do Borralho o cheiro a peixe frito rescendia temperado com versos de Antero.
De luvas e charuto entre os dedos cantava João Penha:
“Oh vós, que do canto sois velhos fregueses,
Ouvi destas liras o mélico emprego!
Nós somos as gemas, os bifes ingleses,
Os paios das filhas do claro Mondego.”
Noites de Coimbra, clandestinas, com Antero de cabeleira e barba de cor de fogo, a
incendiar o mundo.
Velhas ruas, do Guedes, das Flores, das Colchas, das Parreiras…. calcorreadas por
aqueles que lhes sabiam dar a medida da tradição e do nosso romantismo. Aqueles como o lendário Pad Zé a quem João Penha chamou “o último estudante de Coimbra”, verdadeiro cultor da ceia, definindo-a como “a alavanca estática de toda a vida psíquica e psicológica do complexo organismo craniano”. A refeição fundamental.
Era noite em Coimbra. Pairava no ar um apelo, um perfume como sonho, todo espírito, todo sentimento. Os acordes de uma guitarra enchiam o ilimitado espaço da poesia. Depois, uma voz rasgava a penumbra da noite e como uma seta atingia o coração da cidade:
“Coimbra menina e moça,
Coimbra de outros tempos, do lado de lá. Coimbra da Rua Larga, do Largo da Feira, da Rua do Cosme, da Rua de S. João, por onde passavam estudantes, salatinas e tricanas irmanados inconscientemente no amor à velha cidade. Coimbra assassinada.
Lá diz o poeta - são os homens que fazem o mundo feio!
Demoliram as casas, as ruas desapareceram e onde reinava a Lua, agora é o Sol que impiedosamente queima o espaço transformado, enorme, onde não cabem nem povo, nem fogueiras, nem cantigas.
60º Aniversário do Museu Académico de Coimbra
60º Aniversário do Museu Académico de Coimbra por JottaElle
Um apontamento da Comemoração do 60ª Aniversário do Museu Académico, com o "Raízes de Coimbra" e Carlos Carranca.
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